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Contrastes e contradições em "O Caderno", de Ágota Kristóf

O Caderno ( Le Grand Cahier ), de Ágota Kristóf, publicado pela primeira vez em 1986, é uma exploração perturbadora da natureza humana em meio às devastações da guerra. Ambientado em um país não identificado, mas que lembra a Hungria durante a Segunda Guerra Mundial, o romance narra a história de dois irmãos gêmeos que navegam por um mundo brutal com um desapego inquietante. Kristof, escritora nascida na Hungria que fugiu para a Suíça em 1956, constrói uma narrativa ao mesmo tempo concisa e profunda, deixando muito à interpretação do leitor. Críticos elogiaram sua prosa minimalista e a profundidade moral e psicológica do livro, que desafia noções tradicionais de bem e mal, inocência e culpa. O retrato cru da sobrevivência e a moralidade ambígua da obra consolidaram seu lugar como um trabalho significativo na literatura pós-moderna. A trama se desenrola em uma pequena vila onde os gêmeos são enviados para viver com sua avó abusiva após serem abandonados pela mãe. Os meninos documentam...

A língua de Eros

  O programa de pós-graduação em Letras da UFC (PPGL) possui um grupo de estudos sobre erotismo, que, em meados desse mês, apresentou seu 5º Colóquio, intitulado "Pornofagias". Além de conversas, o evento, que aconteceu no prédio do PPGL, contou com exposição de artes visuais (cerâmica, desenho, pintura, escultura, fotografia). As manifestações artísticas eram diversas, interativas e algumas explícitas. Estou longe de ser puritano, e obviamente o erotismo envolve as genitais, mas é justamente essa obviedade que me fez desgostar da exposição e do modo de entender a linguagem erótica. É um tanto preguiçoso pensar logo em vulvas e pênis (esses, por sinal, havia mais que aquelas) quando se quer falar de erotismo e erotização. Para mim (sim, sempre falo do meu ponto de vista, embora considere a opinião dos outros também), a língua de Eros é bem mais sutil, e envolve mais que as genitais. Sinto muito mais prazer estético na expressão erótica que se aproxima de uns versos da música ...

Disciplina, produtividade e culto do eu

   No livro   A sociedade do cansaço ,  Byung-Chul Han afirma que "A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar [de Foucault], mas uma sociedade de desempenho". Para o filósofo coreano, no lugar da proibição e da disciplina, entram possibilidade e produtividade, e isso faz a configuração social ser diferente. De fato, é. Mas vejo que existe algo de comum, subjacente, que é o culto do   eu .  Seja na sociedade de Foucault, seja na de Byung-Chul, obedecer a um regime disciplinar ou dedicar-se a um projeto pressupõem um sentimento de recompensa individual. A obediência, por um lado, garante ao indivíduo não ser posto naqueles "muros das instituições disciplinares, que delimitam os espaços entre o normal e o anormal"; por outro, coloca-o como um exemplo a ser seguido e admirado, ou seja, proporciona um ativo social, digamos assim.  É psicanálise básica. Se é verdade que a formação psíquica de uma pessoa começa na infância e é moldada p...

Tragédia e superação em Iracema

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Indianismo, na literatura brasileira, especificamente no romantismo, é sinônimo de nacionalismo. Se no romantismo europeu o heroísmo se encontrava nos exemplos dos cavaleiros medievais e o cenário era o dos castelos, no Brasil, os escritores românticos tomaram como heróis os indígenas cercados por uma natureza virgem, intocada. Assim, o índio não é visto mais como um selvagem bárbaro e cruel, como é patente em Santa Rita Durão, por exemplo. O índio é, na verdade, exaltado por sua força e coragem e por seu sentimento de honradez, elementos valorizados no código dos cavaleiros medievais. Além disso, o índio não é tido como o gentio totalmente avesso aos preceitos cristãos, mas como tendo todas as qualidades de um cristão, exceto o batismo – ao modo dos que Dante diz se encontrem no limbo, pois “faltou-lhes o batismo", embora tenham realizado boas obras. Exemplo disso é Peri – um fidalgo em corpo de selvagem –, de O Guarani ; e Poti – irmão de coração do cristão Martim –, de Iracema ...

Iracema e a rosa do Brasil

Até o Arcadismo, as atividades literária, em particular, e intelectual, no geral, estavam, mesmo na expressão da realidade local, aferradas aos sistemas expressivos forjados na Europa. Embora ainda se seguisse o exemplo dos escritores de países europeus onde surgiu o Romantismo, com a Independência política, essa tendência sofre uma guinada e se experimenta uma ruptura substancial com os modelos europeus. Inicia-se, então, um movimento de nacionalismo literário que empreendia conceber ou recuperar um ideário que pudesse representar a nação recém criada, de modo a consolidar a Independência. Verifica-se, portanto, o desejo de aplicação social da literatura, que teria, e teve, papel essencial na construção do novo país. Ao mesmo tempo, o movimento dos reformadores das letras tinha o objetivo de dotar o Brasil de uma literatura à altura das literaturas das nações europeias, consideradas modelos de civilização, onde a estética romântica vicejava. Assim, o movimento de renovação literária s...

Iracema e a barbárie açucarada

Com a Independência, em 1822, as instituições públicas e políticas do Brasil, antes, pelo menos desde 1808, lotadas de portugueses, passaram a ser ocupadas por brasileiros, quer dizer, aqueles com vínculos socioeconômicos e culturais ao solo brasileiro. Com a abdicação de D. Pedro I e o início do período regencial, o comando do país não estava mais nas mãos de um português, mas de brasileiros. Concomitante a esse movimento de afirmação política, crescia o movimento de afirmação identitária, que pressupõe, naturalmente, buscar em si o que há de diferente em relação ao Outro, que, no nosso caso, é sobretudo o português, mas também o francês, o italiano, o alemão, enfim, o europeu; mas envolve também o reconhecimento e a asseveração de heranças culturais, como naturalmente um(a) filho(a) herda os genes dos progenitores. Ocorre, então, um duplo movimento de rejeição e adoção, às vezes de um mesmo elemento – assim é que é possível rejeitar a colonização ao mesmo tempo que se mantém o domíni...

Iracema e a figuração de um imaginário nacional

José de Alencar era leitor assíduo de Walter Scott, criador do romance histórico, e foi influenciado por esse escritor. Assim, em vários romances de Alencar, há a mistura de ficção e documento, com enredo que toma como base um argumento histórico. Essa junção se deve também ao projeto de criação de uma literatura nacional, no qual Alencar e os demais escritores românticos do seu tempo estavam fortemente empenhados. No caso de Iracema , a narrativa se estrutura em torno da história do amor da índia homônima por Martim Soares Moreno, personagem histórico que foi indicado para regularizar, em 1608, a colonização da região que mais tarde seria conhecida como Ceará. Essa história de amor não é uma fabulação apenas, mas funciona como uma alegoria da união entre o branco colonizador e o índio, entre a cultura européia, “civilizada”, e os valores indígenas, apresentados como naturalmente bons, união da qual nascem o Brasil e o brasileiro. No enredo, o encontro entre Iracema e Martim é arrebata...