Que mistério tem Clarice?
Sabe quando você grifa as partes mais importantes de um texto e acaba marcando tudo porque tudo é importante? Pois bem. É assim com os livros de Clarice Lispector. Cada palavra, cada frase construída parece estar ali pois foi pensada, sentida, refletida profunda e longamente. É como os óleos essenciais -- substâncias naturais ultraconcentradas extraídas das plantas, de suas flores, sementes, raízes e cascas, enfim, de sua matéria viva e morta. Assim parece ter sido o processo criativo de Clarice -- ela recolhia toda a sua vivência interior, individual e coletiva, tudo que ainda estivesse latente ou já seco, encrostado, misturava e torcia até sair a quintessência da experiência humana. Suas obras não são longas, extensas, como as de seu contemporâneo Guimarães Rosas, por exemplo, cujas obras formam grandes calhamaços de seiscentas páginas. Com efeito, Clarice produz livros bem condensados, enxutos de tudo que não precisa ser dito, das transições que levam o leitor de um ponto impor...