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Mostrando postagens com o rótulo Literatura

A autorrepresentação de grupos marginalizados na literatura

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O artigo “A auto-representação (sic) de grupos marginalizados: tensões e estratégias na narrativa contemporânea”, publicado, em 2007, na revista Letras de Hoje , editada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, e escrito por Regina Dalcastagnè, tem como objetivo a discussão a respeito da literatura feita por escritores pertencentes a grupos marginalizados, considerados, no artigo, como aqueles coletivos que sofrem discriminação ou rejeição pela cultura dominante devido a características como gênero, etnia, orientação sexual, classe social ou condição física.  Para tanto, a autora escolhe três escritores como referência: Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins e Ferréz. Nesta resenha, deter-me-ei a citar Carolina e deixarei de lado os outros, tendo em vista que eles servem, a meu ver, apenas como reforço ao ponto central de discussão. O argumento inicial da autora em favor da literatura produzida por escritores pertencentes a grupos marginalizados é a importância da diversidad...

Ódio, compreensão e revolta no conto "O cachorro", de J. M. Coetzee

Este – ensaio, comentário? – tem como objetivo analisar o conto O cachorro , de J. M. Coetzee, à luz das ideias elaboradas por Antonio Candido em Crítica e Sociologia . Nesse texto, Candido avalia a relação entre a obra e o ambiente, entre literatura e sociedade, entre as considerações estéticas e as de outra ordem (em especial a sociológica, mas também a psicológica, e mais). A posição do crítico se encontra no meio do caminho entre dois extremos, a saber, de um lado, a sociologia tradicional, que, muitas vezes, reduz a obra a um mero documento histórico e quase que descarta o seu valor estético; do outro, a crítica formalista, que ignora o contexto histórico e social que moldou a própria estrutura da obra. Nesse sentido, Candido defende a síntese dessas oposições e argumenta que a obra literária é, ao mesmo tempo, um resultado de dados sociais e uma estrutura autônoma. Sendo assim, a realidade social não entra no livro apenas como "cópia" do real, mas é transformada estrutu...

Os poetas cantam nossas vidas

Não foram poucas as vezes em que o por mim vivido já havia sido escrito. Bem mais que coincidência, quando isso acontecia, parecia mesmo que o universo me dava um presente, um elemento material e sonoro onde não só pudesse guardar o vivido, mas vivificá-lo, atribuir-lhe uma intensidade que sem ele talvez não existisse, ou se dissipasse tão logo nascida.  Ainda lembro, dos tempos da escola, subir no ônibus e ver uma menina encantadora. Eu havia me atrasado, e não fosse por isso talvez não a teria visto. Não muito depois, a professora nos passou Cinco minutos para a gente ler. Já não era mais só uma história. Era a minha história. (Mais ou menos). Passei a leitura imaginando o que poderia ter sido minha vida se tivesse visto a menina de novo e falado com ela. Outra vez, numa dessas casas noturnas, vislumbrei uma jovem brotar do chão (ela subia umas escadas). Alguns minutos se passaram e a vi novamente. Ela estava sentada nos degraus da escada, com a cabeça encostada no corrimão...

Aristóteles leitor de Hesíodo

Dois conceitos são fundantes nos estudos de literatura: verossimilhança e catarse. Um significa "semelhança à verdade" e refere-se mais à forma¹, à constituição do fato literário: "os poetas  estruturam  o enredo atendendo ao princípio da verosimilhança" (Poética, 1451b, grifo meu). O outro significa "purificação", alívio emocional, e está ligado à função da literatura: "we maintain further that music should be studied, not  for the sake of  one, but of many benefits [...]" (Politics, 1341b, grifo meu). Ambos aparecem na  Poética  de Aristóteles, e o segundo é também referido na  Política . Contudo, antes de constituírem tratados sobre a literatura, esses conceitos são revelados na própria literatura. Estou falando da Teogonia  de Hesíodo, na qual o poeta canta a origem dos deuses, mas, antes, em um exercício de metapoética, canta a origem do próprio canto. Este advém das Musas, filhas da Memória, especialmente de Calíope, a Belavoz, que sabem ...

Literatura e a necessidade humana de significado

A palavra significado tem origem no latim, derivado de significare , que quer dizer "mostrar por sinais, signos". No âmbito da linguística, signo é uma entidade birrelativa, constituída inseparavelmente pelo significado e pelo significante. Ou melhor, assim é no Cours de Linguistique Générale (CLG), onde se distinguem o significante como a forma física (sons e letras) e o significado como o conceito mental associado. Por sua vez, na semiótica de Peirce, o signo é uma tríade composta por significante (representamen/forma física), objeto (referente real) e interpretante (efeito mental/significado). Ele define o signo como algo que substitui algo para alguém, mediando a relação entre a mente e o mundo. É uma relação tríadica contínua, diferente da díade do CLG. Eu prefiro o modelo de Peirce. O objeto real, no mundo, é de suma importância. Como anedota, posso contar certa ocasião em que marquei de ir ao cinema com um amigo, e, por termos referentes diferentes, acabamos por nos d...