palavra, viva!
certa vez, confessei uma tia minha que não lia muito e que se um livro não me cativasse nas primeiras páginas desistia dele. às vezes eu leio palavras como quem espera o trovão mas vem só o ruído de um fósforo molhado. não é culpa delas — é que há dias em que nem o céu me atravessa. é que não é toda palavra articulada que consegue transpor a crosta do meu psiquismo, que endureceu com os dias que passei sem espanto. mas ele, ainda que bem rígido como a crosta terrestre, também como ela é cheio de pequenas frestas (there is a crack in everything, that's where the light gets in - meu xará cohen), e alguns — e só alguns —escritos/escritores conseguem lançar suas flechas por essas brechas e rasgar meu interior - como quer kafka que seja a obra de arte. mesmo aquelas palavras mais líquidas, mais moles, mais alveolares, quando tocam aquela massa amorfa do pensamento e lhe dão forma, geram uma descarga que eletrifica o espírito, que fica quase sem saber como aquilo veio a ser. é por isso q...