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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Avatar 3, exploração da natureza e pacifismo

ATENÇÃO! PODE CONTER SPOILERS! Avatar: Fogo e Cinzas saiu e, como manda a tradição, eu e minha companheira fomos ver. Mas, antes, a curiosidade falou mais alto, e vimos algumas resenhas críticas (sem spoilers ) sobre o filme, e todas desceram o pau no roteiro e na repetitividade dos temas e cores, estas últimas sendo justamente as duas pilastras da franquia de Avatar, a meu ver.  O tema principal, que eu consigo divisar em Avatar, é o da exploração capitalista de Pandora, e como podemos nos importar com sua preservação sem antes vê-la pelas lentes da beleza ? Outro tema, que já apareceu no Avatar: Caminho da Água , é o do pacifismo dos tulkuns, uma espécie cetácea altamente inteligente, que possui história e cultura ricas, chegando mesmo a compor música e poesia. Os tulkuns rejeitam, por uma tradição bem antiga, a violência, pois perceberam que ela só gera mais violência, em um ciclo vicioso. Eles levam o pacifismo tão a sério, que chegaram a ostracizar Payakan, um tulkun acusado d...

Homero e a verossimilhança

Quem, ao assistir a um desses filmes de ação hollywoodianos, não ouviu ou proferiu, em protesto, a interjeição: "ô mentira!", e suas variantes? Até parece que, para se ter uma cena épica de ação, seja preciso recorrer à mentira, a recursos pouco ou nada convincentes. Mas Homero, pelo menos em uma passagem, nos versos que abaixo mostrarei, prova o contrário. Ele antecipa o protesto do leitor/ouvinte, e se justifica: Ora todo o corpo de Heitor estava revestido pelas brônzeas armas, belas, que ele despira a Pátroclo depois de o matar. Mas aparecia, no sítio onde a clavícula se separa do pescoço e dos ombros, a garganta, onde rapidíssimo é o fim da vida. Foi aí que com a lança arremeteu furioso o divino Aquiles, e a ponta trespassou completamente o pescoço macio. Mas a lança de freixo, pesada de bronze, não cortou a traqueia, para que Heitor ainda pudesse proferir palavras em resposta. (Canto XXII, v. 322-329). Homero demonstra, nesse trecho da Ilíada, uma clara preocupação com a...

Traição ou trapaça? Duas formas de ver o adultério.

A Goethe é atribuída a frase: "Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada da própria". Obviamente, "nada" é um exagero, mas certamente conhecer outras línguas é importante para conhecer a própria. Isso oferece perspectivas, abrange horizontes, não só no campo linguístico, expressivo, mas também cultural, no modo de ver e entender o mundo. Por exemplo, podemos entender a forma como falantes do português veem o adultério comparando-a à maneira que falantes do inglês o consideram. Em inglês, usam o verbo cheat , que também é usado em contextos de trapaça em jogos. Ou seja, podemos pensar que o adultério, para eles, é uma trapaça, um desrespeito às regras consuetudinárias. Em português, isso não acontece. A palavra trair  é usada para casais, mas também para amigos, companheiros, e até mesmo modos de ser e de pensar: "traiu os princípios em que acreditava"; "o assaltante traiu o companheiro, entregando-o às autoridades".  Essa amplitude sem...

Contra purismos

Os judeus, pelo menos os retratados no Tn''k , são exímios puristas, apegados à santidade , que denota limpeza . Assim, odeiam tudo que é estrangeiro, e não se misturam com a gentalha dos gentios, pois estão convencidos de sua superioridade étnica. Com isso em mente, escreve Esdras: [...] os príncipes se dirigiram a mim e disseram: “O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas não se separaram dos povos das terras ao redor e das suas práticas detestáveis, as práticas dos cananeus, dos hititas, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios e dos amorreus. Eles tomaram algumas das filhas deles como esposas para si e para os seus filhos. Agora eles, a descendência santa, se misturaram com os povos das terras ao redor. Os príncipes e os subgovernadores foram os que mais praticaram essa infidelidade.” Assim que ouvi isso, rasguei a minha túnica e a minha capa, arranquei cabelos da minha cabeça e pelos da minha barba, e me sentei, profundamente abalado " (...