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Cultura, culto e colonização em Anchieta

No decurso da colonização do território que hoje se conhece como Brasil, estiveram presentes dois pólos de ação e de ideologia: o cristianismo e o agro-mercantilismo. Embora diametralmente opostos, esses dois pólos correram lado a lado, como as margens de um rio, com o objetivo comum de efetivar a empreitada colonizadora ibérica. Entenda-se: como colocou Alfredo Bosi, “a linguagem humanista e a linguagem dos interesses acordam sentimentos de contradição” (BOSI, 1999, p. 37). No entanto, parece haver um acordo tácito, no mínimo, entre a atividade econômica e a evangelizatória, quando o assunto é o negro e o indígena. Neste curto texto, focarei no indígena e em sua representação na obra e no pensamento de São José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil. Anchieta se destaca na história colonial do Brasil como um dos fundadores das cidades brasileiras de São Paulo e do Rio de Janeiro e seus esforços, juntamente com os de outro missionário jesuíta, Manuel da Nóbrega, na pacificação dos índio...

As formas de representação do negro na obra de Gregório de Matos

A obra literária atribuída a Gregório de Matos (1636-1696) forma, como diz Araripe Júnior, “um quadro da vida baiana extraordinário de luz e de verdade” (1910, p. 167, apud PERES, 1967, p. 59). Esse quadro é um que satiriza instituições, classes sociais, costumes e pessoas importantes. Um aspecto da sátira de Gregório de Matos que iremos analisar é a forma de representação da pessoa negra (e mulata), apontando as relações sociais e raciais da época.  A postura do artista em relação aos negros e principalmente às mulatas, em oposição ao modo como ele trata outras figuras de sua obra, por exemplo, a mulher branca, de origem ou traços europeus, é patente. A negra e a mulata são descritas como alguém que tenta o poeta. Tomemos um excerto do poema “Indo o poeta passear pela Ilha Cajaíba, encontrou lavando roupa a mulata Annica e lhe fez este romance”: “Tanto deu, tanto bateu co’a barriga, e co’as cadeiras, que me deu a anca fendida mil tentações de fodê-la”. A mulher negra e a mulata sã...

A representação do indígena nas epopeias indianistas do século XVIII no Brasil

Desde o início da formação da literatura brasileira, a representação do indígena na produção literária se configurou apenas do ponto de vista do não-indígena. Muito além da questão de lugar de fala, tal fato inexoravelmente desemboca na não-representação do indígena, mesmo quando é figurado cheio de virtudes, como a coragem. É o que acontece, por exemplo, n’O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, em que o índio é colocado, ao mesmo tempo, como corajoso defensor de sua terra e marionete dos Jesuítas e que, por isso, precisava da redenção proposta pelo império português. Portanto, a literatura que desde o arcadismo figura o índio, sem contudo representá-lo, pode ser denominada de literatura indianista, em oposição à literatura indígena – a que o representa. Sendo assim, quando falamos em “representação do indígena nas epopeias indianistas do século XVIII no Brasil”, queremos aludir realmente à falta de representação propriamente dita, visto que o indígena, além de ser pintado cheio de este...

A retórica humanista-cristã, os interesses coloniais e a figuração do negro escravizado no sermão XIV de Pe. Antônio Vieira

O indígena e o negro escravizado sempre foram, ao longo do processo brasileiro de colonização, objeto tanto de contenda quanto de acordo entre o projeto colonizatório e o projeto evangelizador. Como bem afirmou Alfredo Bosi, a linguagem humanista e a linguagem dos interesses agro mercantis, embora contraditórias entre si em diversos pontos, muitas vezes se tangenciam na produção literária do período colonial (BOSI, 1992, p. 37). Neste breve texto, propomo-nos a discorrer sobre a pacificação entre a retórica humanista-cristã e a retórica dos interesses coloniais e a figuração do negro escravizado no sermão XIV do Padre Antônio Vieira (1608-1697). A maneira como Vieira pinta o negro em seus sermões coaduna com a maneira como a empresa colinial o quer: resignado e resiliente. No sermão XIV, proferido aos escravos de um engenho – “doce inferno” – da região do Recôncavo Baiano, Vieira aproxima a condição do escravo ao calvário de Jesus Cristo e exorta os negros a terem fé na salvação que ad...

A escravidão do negro nos sermões do Padre Antônio Vieira

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, na época da União Ibérica – união das coroas de Portugal e Espanha, nações pioneiras no expansionismo marítimo, sob o comando do monarca espanhol Felipe II. Em 1614, com seis anos de idade, desembarcou no porto da Bahia acompanhado dos pais, e aos quinze teve a solicitação de ingresso à Companhia de Jesus atendida. Esses dados biográficos nos sugerem um aspecto importante na obra de Vieira que será discutido aqui: a simbiose entre o projeto expansionista e o projeto evangelizador – simbiose que podemos chamar simplesmente de projeto civilizatório .  Desde o início das colonizações, a ordem dos jesuítas se engajou na conversão dos gentios (indígenas) e na formação dos filhos das novas terras. No início do noviciado, Vieira conviveu com os padres jesuítas numa aldeia indígena e ficou impressionado pelo trabalho evangelizador da ordem, mas decidiu-se por dedicar seu tempo não apenas à conversão de índios, como também a um projeto humanístico bem amplo....