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Aristóteles leitor de Hesíodo

Dois conceitos são fundantes nos estudos de literatura: verossimilhança e catarse. Um significa "semelhança à verdade" e refere-se mais à forma¹, à constituição do fato literário: "os poetas  estruturam  o enredo atendendo ao princípio da verosimilhança" (Poética, 1451b, grifo meu). O outro significa "purificação", alívio emocional, e está ligado à função da literatura: "we maintain further that music should be studied, not  for the sake of  one, but of many benefits [...]" (Politics, 1341b, grifo meu). Ambos aparecem na  Poética  de Aristóteles, e o segundo é também referido na  Política . Contudo, antes de constituírem tratados sobre a literatura, esses conceitos são revelados na própria literatura. Estou falando da Teogonia  de Hesíodo, na qual o poeta canta a origem dos deuses, mas, antes, em um exercício de metapoética, canta a origem do próprio canto. Este advém das Musas, filhas da Memória, especialmente de Calíope, a Belavoz, que sabem ...

Literatura e a necessidade humana de significado

A palavra significado tem origem no latim, derivado de significare , que quer dizer "mostrar por sinais, signos". No âmbito da linguística, signo é uma entidade birrelativa, constituída inseparavelmente pelo significado e pelo significante. Ou melhor, assim é no Cours de Linguistique Générale (CLG), onde se distinguem o significante como a forma física (sons e letras) e o significado como o conceito mental associado. Por sua vez, na semiótica de Peirce, o signo é uma tríade composta por significante (representamen/forma física), objeto (referente real) e interpretante (efeito mental/significado). Ele define o signo como algo que substitui algo para alguém, mediando a relação entre a mente e o mundo. É uma relação tríadica contínua, diferente da díade do CLG. Eu prefiro o modelo de Peirce. O objeto real, no mundo, é de suma importância. Como anedota, posso contar certa ocasião em que marquei de ir ao cinema com um amigo, e, por termos referentes diferentes, acabamos por nos d...

Estigma e verdade no conto O Barbante, de Guy de Maupassant

"A gente nasce só e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado".  Creio ter Rachel de Queiroz dito a frase. Mas é uma verdade constatável por qualquer um. Na antiguidade, Aristóteles já declarara ser o homem um animal político e, por isso, sociável. Na Bíblia, o próprio Jeová afirmara não ser bom o homem estar só. As ciências também nos esclarecem -- e notável foi no período pandêmico -- que a alienação social compromete a saúde do corpo e da mente. Portanto, não se julgue o indivíduo que procura integrar-se no coletivo. Aliás, essa é, até onde sei, a demanda ( queste ) do herói em qualquer mito e em qualquer tragédia -- em que, no mínimo, há alguma tensão entre essas duas realidades, a individual e a coletiva. Se não for em todos os mitos nem em todas as tragédias, que se cite apenas uma, e já se comprove: Antígona. Essa também é a "tragédia" n' O Barbante , conto de Guy de Maupassant. Deixemos de lado sua associação específic...

Natureza e cultura

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A civilização ocidental, desde seu berço greco-judaico, passando por seus desdobramentos romano-cristãos, é predicada na hierarquia verticalizada da cultura sobre a natureza. Para Aristóteles, essa superioridade era um direito natural: "animais existem para o bem do homem; os animais domésticos para uso e alimentação, e os animais selvagens (senão todos pelo menos a maior parte) para alimentação e outras carências, de modo a obtermos vestes e outros instrumentos a partir deles. Se a natureza nada faz de imperfeito ou em vão, então, necessariamente criou todos estes seres em função do homem" ( Política , 1256b15). Para o autor de Gênesis, é um mandamento divino: "Deus os abençoou e Deus lhes disse: 'Tenham filhos e tornem-se muitos; encham e dominem a terra; tenham domínio sobre os peixes do mar, sobre as criaturas voadoras dos céus e sobre toda criatura vivente que se move sobre a terra'. Então Deus disse: “Eu lhes dou toda planta que dá semente, que há sobre tod...

On brûlera tout(es) les deux en enfer, mon ange...

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Ary Scheffer, The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil, 1835 Public domain "...mais je veux partir avec toi je veux mourir dans tes bras" (Pomme) É difícil crer, ainda mais do ponto de vista cristão, que o amor, tão central nessa religião, possa ser causa de condenação. No entanto, assim ele é tido por muitos autores da tradição cristã, desde o medievo, com Agostinho, Tomás de Aquino, Dante Alighieri, até a contemporaneidade, com C.S. Lewis. Naturalmente, para se safarem nessa empreitada de acusar o amor, dividiram-no, usaram palavras diferentes, e as tomaram do grego gentil, para distinguir manifestações do mesmo amor - o amor de amigos, o amor de familiares, o amor de namorados e o amor de deus. Nas línguas modernas, não existe essa diferenciação de significante - a mesma forma pode comunicar diferentes sentidos, a depender do contexto.  Foram além, e dividiram o amor de namorados¹ em dois, o ordenado e o desordenado (mas relativo a quê?): o que gera fel...

"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas

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Cena da minissérie brasileira "Grande Sertão: Veredas",  exibida pela Rede Globo em 1985.  Para falar do Grande Sertão: veredas (GSv), é válido fazer uma contextualização da obra na historiografia literária. O GSv conta uma história ambientada no sertão brasileiro e é construído como um longo depoimento de Riobaldo, ex-jagunço que relembra sua vida, suas batalhas e suas inquietações morais diante de um interlocutor silencioso, a respeito do qual só sabemos que vem da cidade e é intelectual. Um aspecto importante da psicologia de Riobaldo é sua constante reflexão sobre suas vivências, sobre o bem e o mal, sobre deus e o diabo e sobre a liberdade humana. Esse aspecto é curioso, tendo em vista o paradigma do sertão e do sertanejo construído na literatura brasileira.  Tradicionalmente, o sertão foi representado como um espaço hostil, árido e atrasado, marcado pela seca, pela pobreza, pelo isolamento e pela violência. Desde o século XIX e início do XX, ele aparece muitas ...

Filha contra o pai: Duas visões sobre o progresso do conhecimento

     Mary Shelley, née  Mary Wollstonecraft Godwin, era filha do anarquista (ou assim o consideraram) William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft. Naturalmente, cresceu para ser intelectual, mas, em vez de seguir na filosofia política, como os pais, enveredou pela ficção. Mas nem por isso deixou de tecer comentários acerca dos assuntos correntes de seu tempo. Afinal, o romance, como já afirmou Antonio Candido, "exprime a realidade segundo um ponto de vista [...] analítico e objetivo"¹. E o ponto de vista da autora de Frankenstein  vai de encontro ao de seu pai, ao menos quando o assunto é o progresso do conhecimento.       Em seu tratado Enquiry Concerning Political Justice , Godwin escreve: "The extent of our progress in the cultivation of knowledge, is unlimited. Hence it follows that human inventions, and the modes of social existence, are susceptible of perpetual improvement"².       Mary Shelley, por sua vez, cr...