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Que mistério tem Clarice?

Sabe quando você grifa as partes mais importantes de um texto e acaba marcando tudo porque tudo é importante? Pois bem. É assim com os livros de Clarice Lispector. Cada palavra, cada frase construída parece estar ali pois foi pensada, sentida, refletida profunda e longamente. É como os óleos essenciais -- substâncias naturais ultraconcentradas extraídas das plantas, de suas flores, sementes, raízes e cascas, enfim, de sua matéria viva e morta.  Assim parece ter sido o processo criativo de Clarice -- ela recolhia toda a sua vivência interior, individual e coletiva, tudo que ainda estivesse latente ou já seco, encrostado, misturava e torcia até sair a quintessência da experiência humana. Suas obras não são longas, extensas, como as de seu contemporâneo Guimarães Rosas, por exemplo, cujas obras formam grandes calhamaços de seiscentas páginas. Com efeito, Clarice produz livros bem condensados, enxutos de tudo que não precisa ser dito, das transições que levam o leitor de um ponto impor...

Os poetas cantam nossas vidas

Não foram poucas as vezes em que o por mim vivido já havia sido escrito. Bem mais que coincidência, quando isso acontecia, parecia mesmo que o universo me dava um presente, um elemento material e sonoro onde não só pudesse guardar o vivido, mas vivificá-lo, atribuir-lhe uma intensidade que sem ele talvez não existisse, ou se dissipasse tão logo nascida.  Ainda lembro, dos tempos da escola, subir no ônibus e ver uma menina encantadora. Eu havia me atrasado, e não fosse por isso talvez não a teria visto. Não muito depois, a professora nos passou Cinco minutos para a gente ler. Já não era mais só uma história. Era a minha história. (Mais ou menos). Passei a leitura imaginando o que poderia ter sido minha vida se tivesse visto a menina de novo e falado com ela. Outra vez, numa dessas casas noturnas, vislumbrei uma jovem brotar do chão (ela subia umas escadas). Alguns minutos se passaram e a vi novamente. Ela estava sentada nos degraus da escada, com a cabeça encostada no corrimão...

Sarrasine mise en abyme

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Podemos aceitar, como na tirinha de Lartes*, com notável indiferença, a morte de Deus ou o fim da Arte, mas jamais conseguiremos ouvir, sem espanto ou assombro, que o amor seja ilusão. Nós nos agitaremos com violência, na tentativa de resistir ao epílogo desse único fio que mantém o tecido da realidade ainda cosido à consciência. Não importa quantos realistas, cínicos, pessimistas, niilistas e outros demônios afins tencionem (e, assim, tensionem) fazer crer o contrário, nossa psique -- nossa alma -- luta contra essa verdade. É dessa maneira que a Marquesa de Rochefide, personagem de Balzac, comporta-se. Como é comum no universo de Balzac, essa personagem transita por diversos livros, reforçando a ideia de um mundo literário balzaquiano interconectado. Neste ensaio, contudo, serão consideradas suas aparições em Sarrasine e em Béatrix , pois essas duas histórias parecem estar relacionadas por meio do mecanismo mise en abyme . MISE EN ABYME A expressão francesa mise en abyme , que pode se...

Pode a arte consertar alguma coisa?

Vi o Valor Sentimental  semana passada e só agora pude parar para comentar. Adiei a ida ao cinema para ver esse filme, pois não gosto de entrar no hype , como dizem (ainda dizem?). O filme é lindo, e há muito o que ser dito sobre ele -- e sobre o que fez ou não  fez comigo. Mas não vou tecer comentários sobre o enredo, nem sobre a fotografia ou as atuações impecáveis. Quero falar do questionamento que ficou em mim, depois: pode a arte consertar alguma coisa? Antes de responder se a arte pode consertar --  é preciso saber se ela faz  -- alguma coisa, de qualquer modo. Muitas pessoas acham que a arte é apenas um enfeite ou algo para passar o tempo. Mas, na verdade, a arte é capaz de mexer com o que sentimos e com o que pensamos sobre a vida. Sartre, um filósofo que escreveu muito sobre literatura, acreditava que a arte tem uma função social clara. Para ele, o artista não escreve ou pinta apenas para ser admirado, mas para despertar a liberdade de quem vê a ob...

Aristóteles leitor de Hesíodo

Dois conceitos são fundantes nos estudos de literatura: verossimilhança e catarse. Um significa "semelhança à verdade" e refere-se mais à forma¹, à constituição do fato literário: "os poetas  estruturam  o enredo atendendo ao princípio da verosimilhança" (Poética, 1451b, grifo meu). O outro significa "purificação", alívio emocional, e está ligado à função da literatura: "we maintain further that music should be studied, not  for the sake of  one, but of many benefits [...]" (Politics, 1341b, grifo meu). Ambos aparecem na  Poética  de Aristóteles, e o segundo é também referido na  Política . Contudo, antes de constituírem tratados sobre a literatura, esses conceitos são revelados na própria literatura. Estou falando da Teogonia  de Hesíodo, na qual o poeta canta a origem dos deuses, mas, antes, em um exercício de metapoética, canta a origem do próprio canto. Este advém das Musas, filhas da Memória, especialmente de Calíope, a Belavoz, que sabem ...

Literatura e a necessidade humana de significado

A palavra significado tem origem no latim, derivado de significare , que quer dizer "mostrar por sinais, signos". No âmbito da linguística, signo é uma entidade birrelativa, constituída inseparavelmente pelo significado e pelo significante. Ou melhor, assim é no Cours de Linguistique Générale (CLG), onde se distinguem o significante como a forma física (sons e letras) e o significado como o conceito mental associado. Por sua vez, na semiótica de Peirce, o signo é uma tríade composta por significante (representamen/forma física), objeto (referente real) e interpretante (efeito mental/significado). Ele define o signo como algo que substitui algo para alguém, mediando a relação entre a mente e o mundo. É uma relação tríadica contínua, diferente da díade do CLG. Eu prefiro o modelo de Peirce. O objeto real, no mundo, é de suma importância. Como anedota, posso contar certa ocasião em que marquei de ir ao cinema com um amigo, e, por termos referentes diferentes, acabamos por nos d...

Estigma e verdade no conto O Barbante, de Guy de Maupassant

"A gente nasce só e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado".  Creio ter Rachel de Queiroz dito a frase. Mas é uma verdade constatável por qualquer um. Na antiguidade, Aristóteles já declarara ser o homem um animal político e, por isso, sociável. Na Bíblia, o próprio Jeová afirmara não ser bom o homem estar só. As ciências também nos esclarecem -- e notável foi no período pandêmico -- que a alienação social compromete a saúde do corpo e da mente. Portanto, não se julgue o indivíduo que procura integrar-se no coletivo. Aliás, essa é, até onde sei, a demanda ( queste ) do herói em qualquer mito e em qualquer tragédia -- em que, no mínimo, há alguma tensão entre essas duas realidades, a individual e a coletiva. Se não for em todos os mitos nem em todas as tragédias, que se cite apenas uma, e já se comprove: Antígona. Essa também é a "tragédia" n' O Barbante , conto de Guy de Maupassant. Deixemos de lado sua associação específic...