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Sarrasine mise en abyme

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Podemos aceitar, como na tirinha de Lartes*, com notável indiferença, a morte de Deus ou o fim da Arte, mas jamais conseguiremos ouvir, sem espanto ou assombro, que o amor seja ilusão. Nós nos agitaremos com violência, na tentativa de resistir ao epílogo desse único fio que mantém o tecido da realidade ainda cosido à consciência. Não importa quantos realistas, cínicos, pessimistas, niilistas e outros demônios afins tencionem (e, assim, tensionem) fazer crer o contrário, nossa psique -- nossa alma -- luta contra essa verdade. É dessa maneira que a Marquesa de Rochefide, personagem de Balzac, comporta-se. Como é comum no universo de Balzac, essa personagem transita por diversos livros, reforçando a ideia de um mundo literário balzaquiano interconectado. Neste ensaio, contudo, serão consideradas suas aparições em Sarrasine e em Béatrix , pois essas duas histórias parecem estar relacionadas por meio do mecanismo mise en abyme . MISE EN ABYME A expressão francesa mise en abyme , que pode se...

Pode a arte consertar alguma coisa?

Vi o Valor Sentimental  semana passada e só agora pude parar para comentar. Adiei a ida ao cinema para ver esse filme, pois não gosto de entrar no hype , como dizem (ainda dizem?). O filme é lindo, e há muito o que ser dito sobre ele -- e sobre o que fez ou não  fez comigo. Mas não vou tecer comentários sobre o enredo, nem sobre a fotografia ou as atuações impecáveis. Quero falar do questionamento que ficou em mim, depois: pode a arte consertar alguma coisa? Antes de responder se a arte pode consertar --  é preciso saber se ela faz  -- alguma coisa, de qualquer modo. Muitas pessoas acham que a arte é apenas um enfeite ou algo para passar o tempo. Mas, na verdade, a arte é capaz de mexer com o que sentimos e com o que pensamos sobre a vida. Sartre, um filósofo que escreveu muito sobre literatura, acreditava que a arte tem uma função social clara. Para ele, o artista não escreve ou pinta apenas para ser admirado, mas para despertar a liberdade de quem vê a ob...

Aristóteles leitor de Hesíodo

Dois conceitos são fundantes nos estudos de literatura: verossimilhança e catarse. Um significa "semelhança à verdade" e refere-se mais à forma¹, à constituição do fato literário: "os poetas  estruturam  o enredo atendendo ao princípio da verosimilhança" (Poética, 1451b, grifo meu). O outro significa "purificação", alívio emocional, e está ligado à função da literatura: "we maintain further that music should be studied, not  for the sake of  one, but of many benefits [...]" (Politics, 1341b, grifo meu). Ambos aparecem na  Poética  de Aristóteles, e o segundo é também referido na  Política . Contudo, antes de constituírem tratados sobre a literatura, esses conceitos são revelados na própria literatura. Estou falando da Teogonia  de Hesíodo, na qual o poeta canta a origem dos deuses, mas, antes, em um exercício de metapoética, canta a origem do próprio canto. Este advém das Musas, filhas da Memória, especialmente de Calíope, a Belavoz, que sabem ...

Literatura e a necessidade humana de significado

A palavra significado tem origem no latim, derivado de significare , que quer dizer "mostrar por sinais, signos". No âmbito da linguística, signo é uma entidade birrelativa, constituída inseparavelmente pelo significado e pelo significante. Ou melhor, assim é no Cours de Linguistique Générale (CLG), onde se distinguem o significante como a forma física (sons e letras) e o significado como o conceito mental associado. Por sua vez, na semiótica de Peirce, o signo é uma tríade composta por significante (representamen/forma física), objeto (referente real) e interpretante (efeito mental/significado). Ele define o signo como algo que substitui algo para alguém, mediando a relação entre a mente e o mundo. É uma relação tríadica contínua, diferente da díade do CLG. Eu prefiro o modelo de Peirce. O objeto real, no mundo, é de suma importância. Como anedota, posso contar certa ocasião em que marquei de ir ao cinema com um amigo, e, por termos referentes diferentes, acabamos por nos d...

Estigma e verdade no conto O Barbante, de Guy de Maupassant

"A gente nasce só e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado".  Creio ter Rachel de Queiroz dito a frase. Mas é uma verdade constatável por qualquer um. Na antiguidade, Aristóteles já declarara ser o homem um animal político e, por isso, sociável. Na Bíblia, o próprio Jeová afirmara não ser bom o homem estar só. As ciências também nos esclarecem -- e notável foi no período pandêmico -- que a alienação social compromete a saúde do corpo e da mente. Portanto, não se julgue o indivíduo que procura integrar-se no coletivo. Aliás, essa é, até onde sei, a demanda ( queste ) do herói em qualquer mito e em qualquer tragédia -- em que, no mínimo, há alguma tensão entre essas duas realidades, a individual e a coletiva. Se não for em todos os mitos nem em todas as tragédias, que se cite apenas uma, e já se comprove: Antígona. Essa também é a "tragédia" n' O Barbante , conto de Guy de Maupassant. Deixemos de lado sua associação específic...

Natureza e cultura

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A civilização ocidental, desde seu berço greco-judaico, passando por seus desdobramentos romano-cristãos, é predicada na hierarquia verticalizada da cultura sobre a natureza. Para Aristóteles, essa superioridade era um direito natural: "animais existem para o bem do homem; os animais domésticos para uso e alimentação, e os animais selvagens (senão todos pelo menos a maior parte) para alimentação e outras carências, de modo a obtermos vestes e outros instrumentos a partir deles. Se a natureza nada faz de imperfeito ou em vão, então, necessariamente criou todos estes seres em função do homem" ( Política , 1256b15). Para o autor de Gênesis, é um mandamento divino: "Deus os abençoou e Deus lhes disse: 'Tenham filhos e tornem-se muitos; encham e dominem a terra; tenham domínio sobre os peixes do mar, sobre as criaturas voadoras dos céus e sobre toda criatura vivente que se move sobre a terra'. Então Deus disse: “Eu lhes dou toda planta que dá semente, que há sobre tod...

On brûlera tout(es) les deux en enfer, mon ange...

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Ary Scheffer, The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil, 1835 Public domain "...mais je veux partir avec toi je veux mourir dans tes bras" (Pomme) É difícil crer, ainda mais do ponto de vista cristão, que o amor, tão central nessa religião, possa ser causa de condenação. No entanto, assim ele é tido por muitos autores da tradição cristã, desde o medievo, com Agostinho, Tomás de Aquino, Dante Alighieri, até a contemporaneidade, com C.S. Lewis. Naturalmente, para se safarem nessa empreitada de acusar o amor, dividiram-no, usaram palavras diferentes, e as tomaram do grego gentil, para distinguir manifestações do mesmo amor - o amor de amigos, o amor de familiares, o amor de namorados e o amor de deus. Nas línguas modernas, não existe essa diferenciação de significante - a mesma forma pode comunicar diferentes sentidos, a depender do contexto.  Foram além, e dividiram o amor de namorados¹ em dois, o ordenado e o desordenado (mas relativo a quê?): o que gera fel...