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On brûlera tout(es) les deux en enfer, mon ange...

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Ary Scheffer, The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil, 1835 Public domain "...mais je veux partir avec toi je veux mourir dans tes bras" (Pomme) É difícil crer, ainda mais do ponto de vista cristão, que o amor, tão central nessa religião, possa ser causa de condenação. No entanto, assim ele é tido por muitos autores da tradição cristã, desde o medievo, com Agostinho, Tomás de Aquino, Dante Alighieri, até a contemporaneidade, com C.S. Lewis. Naturalmente, para se safarem nessa empreitada de acusar o amor, dividiram-no, usaram palavras diferentes, e as tomaram do grego gentil, para distinguir manifestações do mesmo amor - o amor de amigos, o amor de familiares, o amor de namorados e o amor de deus. Nas línguas modernas, não existe essa diferenciação de significante - a mesma forma pode comunicar diferentes sentidos, a depender do contexto.  Foram além, e dividiram o amor de namorados¹ em dois, o ordenado e o desordenado (mas relativo a quê?): o que gera fel...

"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas

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Cena da minissérie brasileira "Grande Sertão: Veredas",  exibida pela Rede Globo em 1985.  Para falar do Grande Sertão: veredas (GSv), é válido fazer uma contextualização da obra na historiografia literária. O GSv conta uma história ambientada no sertão brasileiro e é construído como um longo depoimento de Riobaldo, ex-jagunço que relembra sua vida, suas batalhas e suas inquietações morais diante de um interlocutor silencioso, a respeito do qual só sabemos que vem da cidade e é intelectual. Um aspecto importante da psicologia de Riobaldo é sua constante reflexão sobre suas vivências, sobre o bem e o mal, sobre deus e o diabo e sobre a liberdade humana. Esse aspecto é curioso, tendo em vista o paradigma do sertão e do sertanejo construído na literatura brasileira.  Tradicionalmente, o sertão foi representado como um espaço hostil, árido e atrasado, marcado pela seca, pela pobreza, pelo isolamento e pela violência. Desde o século XIX e início do XX, ele aparece muitas ...

Filha contra o pai: Duas visões sobre o progresso do conhecimento

     Mary Shelley, née  Mary Wollstonecraft Godwin, era filha do anarquista (ou assim o consideraram) William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft. Naturalmente, cresceu para ser intelectual, mas, em vez de seguir na filosofia política, como os pais, enveredou pela ficção. Mas nem por isso deixou de tecer comentários acerca dos assuntos correntes de seu tempo. Afinal, o romance, como já afirmou Antonio Candido, "exprime a realidade segundo um ponto de vista [...] analítico e objetivo"¹. E o ponto de vista da autora de Frankenstein  vai de encontro ao de seu pai, ao menos quando o assunto é o progresso do conhecimento.       Em seu tratado Enquiry Concerning Political Justice , Godwin escreve: "The extent of our progress in the cultivation of knowledge, is unlimited. Hence it follows that human inventions, and the modes of social existence, are susceptible of perpetual improvement"².       Mary Shelley, por sua vez, cr...

Avatar 3, exploração da natureza e pacifismo

ATENÇÃO! PODE CONTER SPOILERS! Avatar: Fogo e Cinzas saiu e, como manda a tradição, eu e minha companheira fomos ver. Mas, antes, a curiosidade falou mais alto, e vimos algumas resenhas críticas (sem spoilers ) sobre o filme, e todas desceram o pau no roteiro e na repetitividade dos temas e cores, estas últimas sendo justamente as duas pilastras da franquia de Avatar, a meu ver.  O tema principal, que eu consigo divisar em Avatar, é o da exploração capitalista de Pandora, e como podemos nos importar com sua preservação sem antes vê-la pelas lentes da beleza ? Outro tema, que já apareceu no Avatar: Caminho da Água , é o do pacifismo dos tulkuns, uma espécie cetácea altamente inteligente, que possui história e cultura ricas, chegando mesmo a compor música e poesia. Os tulkuns rejeitam, por uma tradição bem antiga, a violência, pois perceberam que ela só gera mais violência, em um ciclo vicioso. Eles levam o pacifismo tão a sério, que chegaram a ostracizar Payakan, um tulkun acusado d...

Homero e a verossimilhança

Quem, ao assistir a um desses filmes de ação hollywoodianos, não ouviu ou proferiu, em protesto, a interjeição: "ô mentira!", e suas variantes? Até parece que, para se ter uma cena épica de ação, seja preciso recorrer à mentira, a recursos pouco ou nada convincentes. Mas Homero, pelo menos em uma passagem, nos versos que abaixo mostrarei, prova o contrário. Ele antecipa o protesto do leitor/ouvinte, e se justifica: Ora todo o corpo de Heitor estava revestido pelas brônzeas armas, belas, que ele despira a Pátroclo depois de o matar. Mas aparecia, no sítio onde a clavícula se separa do pescoço e dos ombros, a garganta, onde rapidíssimo é o fim da vida. Foi aí que com a lança arremeteu furioso o divino Aquiles, e a ponta trespassou completamente o pescoço macio. Mas a lança de freixo, pesada de bronze, não cortou a traqueia, para que Heitor ainda pudesse proferir palavras em resposta. (Canto XXII, v. 322-329). Homero demonstra, nesse trecho da Ilíada, uma clara preocupação com a...

Apontamentos linguístico-teológicos sobre a divindade de Jesus

O Natal se aproxima, e se ouve em toda parte as clássicas músicas natalinas. E uma muita interessante, do ponto de vista teológico, é a do bate o sino pequenino sino de Belém , pois aí se afirma a tão debatida divindade de Jesus: "já nasceu o deus menino". Mas de onde é que vem essa ideia de que Jesus era deus? Ela vem, primeiro, de Paulo, que o chamava Senhor , que na cultura judaica se refere apenas a deus; depois, temos João, que associa diretamente Jesus à deus, no versículo:  Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος,     καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν,     καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. No princípio era o verbo,         e o verbo era com o deus,              e deus era o verbo. Note-se, no entanto, que essa tradução interlinear difere da maioria das traduções. A terceira oração é colocada na ordem "e o verbo era deus", em vez de "e deus era o verbo", como está no original. Essa ordem muda alguma coisa? Vamos ver. Estamos ...

Traição ou trapaça? Duas formas de ver o adultério.

A Goethe é atribuída a frase: "Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada da própria". Obviamente, "nada" é um exagero, mas certamente conhecer outras línguas é importante para conhecer a própria. Isso oferece perspectivas, abrange horizontes, não só no campo linguístico, expressivo, mas também cultural, no modo de ver e entender o mundo. Por exemplo, podemos entender a forma como falantes do português veem o adultério comparando-a à maneira que falantes do inglês o consideram. Em inglês, usam o verbo cheat , que também é usado em contextos de trapaça em jogos. Ou seja, podemos pensar que o adultério, para eles, é uma trapaça, um desrespeito às regras consuetudinárias. Em português, isso não acontece. A palavra trair  é usada para casais, mas também para amigos, companheiros, e até mesmo modos de ser e de pensar: "traiu os princípios em que acreditava"; "o assaltante traiu o companheiro, entregando-o às autoridades".  Essa amplitude sem...