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Tragédia e superação em Iracema

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Indianismo, na literatura brasileira, especificamente no romantismo, é sinônimo de nacionalismo. Se no romantismo europeu o heroísmo se encontrava nos exemplos dos cavaleiros medievais e o cenário era o dos castelos, no Brasil, os escritores românticos tomaram como heróis os indígenas cercados por uma natureza virgem, intocada. Assim, o índio não é visto mais como um selvagem bárbaro e cruel, como é patente em Santa Rita Durão, por exemplo. O índio é, na verdade, exaltado por sua força e coragem e por seu sentimento de honradez, elementos valorizados no código dos cavaleiros medievais. Além disso, o índio não é tido como o gentio totalmente avesso aos preceitos cristãos, mas como tendo todas as qualidades de um cristão, exceto o batismo – ao modo dos que Dante diz se encontrem no limbo, pois “faltou-lhes o batismo", embora tenham realizado boas obras. Exemplo disso é Peri – um fidalgo em corpo de selvagem –, de O Guarani ; e Poti – irmão de coração do cristão Martim –, de Iracema ...

Iracema e a rosa do Brasil

Até o Arcadismo, as atividades literária, em particular, e intelectual, no geral, estavam, mesmo na expressão da realidade local, aferradas aos sistemas expressivos forjados na Europa. Embora ainda se seguisse o exemplo dos escritores de países europeus onde surgiu o Romantismo, com a Independência política, essa tendência sofre uma guinada e se experimenta uma ruptura substancial com os modelos europeus. Inicia-se, então, um movimento de nacionalismo literário que empreendia conceber ou recuperar um ideário que pudesse representar a nação recém criada, de modo a consolidar a Independência. Verifica-se, portanto, o desejo de aplicação social da literatura, que teria, e teve, papel essencial na construção do novo país. Ao mesmo tempo, o movimento dos reformadores das letras tinha o objetivo de dotar o Brasil de uma literatura à altura das literaturas das nações europeias, consideradas modelos de civilização, onde a estética romântica vicejava. Assim, o movimento de renovação literária s...

Iracema e a barbárie açucarada

Com a Independência, em 1822, as instituições públicas e políticas do Brasil, antes, pelo menos desde 1808, lotadas de portugueses, passaram a ser ocupadas por brasileiros, quer dizer, aqueles com vínculos socioeconômicos e culturais ao solo brasileiro. Com a abdicação de D. Pedro I e o início do período regencial, o comando do país não estava mais nas mãos de um português, mas de brasileiros. Concomitante a esse movimento de afirmação política, crescia o movimento de afirmação identitária, que pressupõe, naturalmente, buscar em si o que há de diferente em relação ao Outro, que, no nosso caso, é sobretudo o português, mas também o francês, o italiano, o alemão, enfim, o europeu; mas envolve também o reconhecimento e a asseveração de heranças culturais, como naturalmente um(a) filho(a) herda os genes dos progenitores. Ocorre, então, um duplo movimento de rejeição e adoção, às vezes de um mesmo elemento – assim é que é possível rejeitar a colonização ao mesmo tempo que se mantém o domíni...

Iracema e a figuração de um imaginário nacional

José de Alencar era leitor assíduo de Walter Scott, criador do romance histórico, e foi influenciado por esse escritor. Assim, em vários romances de Alencar, há a mistura de ficção e documento, com enredo que toma como base um argumento histórico. Essa junção se deve também ao projeto de criação de uma literatura nacional, no qual Alencar e os demais escritores românticos do seu tempo estavam fortemente empenhados. No caso de Iracema , a narrativa se estrutura em torno da história do amor da índia homônima por Martim Soares Moreno, personagem histórico que foi indicado para regularizar, em 1608, a colonização da região que mais tarde seria conhecida como Ceará. Essa história de amor não é uma fabulação apenas, mas funciona como uma alegoria da união entre o branco colonizador e o índio, entre a cultura européia, “civilizada”, e os valores indígenas, apresentados como naturalmente bons, união da qual nascem o Brasil e o brasileiro. No enredo, o encontro entre Iracema e Martim é arrebata...

O amor e a vida real: uma leitura comparativa de Madame Bovary e Senhora

  Quando a ideia de amor toma o lugar do objeto amado e se espera que o real corresponda em todos os aspectos ao ideal, experimenta-se desilusão, que é como acordar de um sonho, ao se perceber a frustrante distância entre o que é e o que deveria ser. Essa idealização do amor, uma regra no romantismo, é bastante criticada pela literatura realista, que enfatiza e escancara a realidade crua dos relacionamentos e da vida "como ela é". Uma obra expoente do realismo que retrata as tensões entre o amor e a vida real é  Madame Bovary  (1857). Emma Bovary,  née  Roualt, sonha com o amor, com o extraordinário, com viver e realizar as aventuras dos heróis e das heroínas que admira nas páginas românticas, só para ver suas fantasias pulverizadas pelas coisas comezinhas e pelo aspecto prático da vida, que nos obrigam a pisar no chão. Contra esse fatalismo e em favor de um amor capaz de superar o pragmatismo cotidiano, coloca-se  Senhora  (1875). Madame Bovary Sob o ...