Postagens

Mostrando postagens com o rótulo poesia

Os poetas cantam nossas vidas

Não foram poucas as vezes em que o por mim vivido já havia sido escrito. Bem mais que coincidência, quando isso acontecia, parecia mesmo que o universo me dava um presente, um elemento material e sonoro onde não só pudesse guardar o vivido, mas vivificá-lo, atribuir-lhe uma intensidade que sem ele talvez não existisse, ou se dissipasse tão logo nascida.  Ainda lembro, dos tempos da escola, subir no ônibus e ver uma menina encantadora. Eu havia me atrasado, e não fosse por isso talvez não a teria visto. Não muito depois, a professora nos passou Cinco minutos para a gente ler. Já não era mais só uma história. Era a minha história. (Mais ou menos). Passei a leitura imaginando o que poderia ter sido minha vida se tivesse visto a menina de novo e falado com ela. Outra vez, numa dessas casas noturnas, vislumbrei uma jovem brotar do chão (ela subia umas escadas). Alguns minutos se passaram e a vi novamente. Ela estava sentada nos degraus da escada, com a cabeça encostada no corrimão...

Crítica da Crítica Platônica aos Poetas

A filosofia de Platão é uma das mais influentes da tradição ocidental, mas também uma das mais debatidas. Entre suas muitas ideias, uma das mais controversas é sua crítica aos poetas, especialmente exposta na República, onde ele argumenta que a poesia está distante da verdade e que os poetas oferecem uma ilusão de conhecimento, sem base racional ou prática. No entanto, essa posição pode ser questionada a partir de vários exemplos históricos e epistemológicos que demonstram que a literatura, a mitologia e a poesia são, de fato, fontes válidas de conhecimento. Para Platão, a poesia e outras formas artísticas são meras imitações da realidade, distanciando-se da verdade ao lidarem apenas com aparências e emoções. Ele acreditava que os poetas não possuíam conhecimento verdadeiro, pois apenas reproduziam e embelezavam experiências sensíveis sem compreender suas essências. No entanto, essa visão ignora o fato de que a literatura não apenas imita, mas também interpreta, sistematiza e, muitas v...

poesia e efemeridade

Até hoje ninguém definiu a poesia (nem mesmo a literatura). O que há são definições, no plural. Porque sempre que se experimenta um momento poética, toma-se-o como metáfora para o que é poesia. Por exemplo, ontem mesmo escrevi: Poesia é olhar pra o céu E ver nas nuvens A ilha britânica Enquanto toca Belle and Sebastian No aparelho de som O momento inspirador desse poeminha foi singular e — permitam-me o pleonasmo — momentâneo como as nuvens. Mas por carregar em si serendipidade e coincidência significativa, tem a ventura de guardar no envelope da poesia a efemeridade. E talvez esteja aí a definição de poesia, que compassa a todas as outras definições vindas e vindouras: poesia é guardar efemeridades. E dentre todos os artifícios humanos tentativos de conseguir a eternidade, a poesia é a única invenção bem-sucedida. Não porque efetivamente alcança a perpetuidade: pois nada o é. Mas por a poesia ser também efêmera. Por acontecer num átimo, simultâneo ao momentâneo, a poesia se identifica...