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Mostrando postagens de janeiro, 2026

"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas

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Cena da minissérie brasileira "Grande Sertão: Veredas",  exibida pela Rede Globo em 1985.  Para falar do Grande Sertão: veredas (GSv), é válido fazer uma contextualização da obra na historiografia literária. O GSv conta uma história ambientada no sertão brasileiro e é construído como um longo depoimento de Riobaldo, ex-jagunço que relembra sua vida, suas batalhas e suas inquietações morais diante de um interlocutor silencioso, a respeito do qual só sabemos que vem da cidade e é intelectual. Um aspecto importante da psicologia de Riobaldo é sua constante reflexão sobre suas vivências, sobre o bem e o mal, sobre deus e o diabo e sobre a liberdade humana. Esse aspecto é curioso, tendo em vista o paradigma do sertão e do sertanejo construído na literatura brasileira.  Tradicionalmente, o sertão foi representado como um espaço hostil, árido e atrasado, marcado pela seca, pela pobreza, pelo isolamento e pela violência. Desde o século XIX e início do XX, ele aparece muitas ...

Filha contra o pai: Duas visões sobre o progresso do conhecimento

     Mary Shelley, née  Mary Wollstonecraft Godwin, era filha do anarquista (ou assim o consideraram) William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft. Naturalmente, cresceu para ser intelectual, mas, em vez de seguir na filosofia política, como os pais, enveredou pela ficção. Mas nem por isso deixou de tecer comentários acerca dos assuntos correntes de seu tempo. Afinal, o romance, como já afirmou Antonio Candido, "exprime a realidade segundo um ponto de vista [...] analítico e objetivo"¹. E o ponto de vista da autora de Frankenstein  vai de encontro ao de seu pai, ao menos quando o assunto é o progresso do conhecimento.       Em seu tratado Enquiry Concerning Political Justice , Godwin escreve: "The extent of our progress in the cultivation of knowledge, is unlimited. Hence it follows that human inventions, and the modes of social existence, are susceptible of perpetual improvement"².       Mary Shelley, por sua vez, cr...