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Os poetas cantam nossas vidas

Não foram poucas as vezes em que o por mim vivido já havia sido escrito. Bem mais que coincidência, quando isso acontecia, parecia mesmo que o universo me dava um presente, um elemento material e sonoro onde não só pudesse guardar o vivido, mas vivificá-lo, atribuir-lhe uma intensidade que sem ele talvez não existisse, ou se dissipasse tão logo nascida.  Ainda lembro, dos tempos da escola, subir no ônibus e ver uma menina encantadora. Eu havia me atrasado, e não fosse por isso talvez não a teria visto. Não muito depois, a professora nos passou Cinco minutos para a gente ler. Já não era mais só uma história. Era a minha história. (Mais ou menos). Passei a leitura imaginando o que poderia ter sido minha vida se tivesse visto a menina de novo e falado com ela. Outra vez, numa dessas casas noturnas, vislumbrei uma jovem brotar do chão (ela subia umas escadas). Alguns minutos se passaram e a vi novamente. Ela estava sentada nos degraus da escada, com a cabeça encostada no corrimão...

palavra, viva!

certa vez, confessei uma tia minha que não lia muito e que se um livro não me cativasse nas primeiras páginas desistia dele. às vezes eu leio palavras como quem espera o trovão mas vem só o ruído de um fósforo molhado. não é culpa delas — é que há dias em que nem o céu me atravessa. é que não é toda palavra articulada que consegue transpor a crosta do meu psiquismo, que endureceu com os dias que passei sem espanto. mas ele, ainda que bem rígido como a crosta terrestre, também como ela é cheio de pequenas frestas (there is a crack in everything, that's where the light gets in - meu xará cohen), e alguns — e só alguns —escritos/escritores conseguem lançar suas flechas por essas brechas e rasgar meu interior - como quer kafka que seja a obra de arte. mesmo aquelas palavras mais líquidas, mais moles, mais alveolares, quando tocam aquela massa amorfa do pensamento e lhe dão forma, geram uma descarga que eletrifica o espírito, que fica quase sem saber como aquilo veio a ser. é por isso q...