Os poetas cantam nossas vidas

Não foram poucas as vezes em que o por mim vivido já havia sido escrito. Bem mais que coincidência, quando isso acontecia, parecia mesmo que o universo me dava um presente, um elemento material e sonoro onde não só pudesse guardar o vivido, mas vivificá-lo, atribuir-lhe uma intensidade que sem ele talvez não existisse, ou se dissipasse tão logo nascida. 

Ainda lembro, dos tempos da escola, subir no ônibus e ver uma menina encantadora. Eu havia me atrasado, e não fosse por isso talvez não a teria visto. Não muito depois, a professora nos passou Cinco minutos para ler. Já não era mais só uma história. Era a minha história. (Mais ou menos). Passei a leitura imaginando o que poderia ter sido minha vida se tivesse visto a menina de novo e falado com ela.

Outra vez, numa dessas casas noturnas, vislumbrei uma jovem brotar do chão (ela subia umas escadas). Alguns minutos se passaram e a vi novamente. Ela estava sentada nos degraus da escada, com a cabeça encostada no corrimão. Tomei coragem e me aprocheguei. Perguntei o que havia de errado e ela me contou. Ofereci uma garrafa de vinho e conversamos a madrugada inteira. O vinho e o amor deixaram meu sangue mais fino. Fui para casa e abri um livro de poesia, como sempre faço.  Era Yeats, a descrever minha noite -- "wine comes in at the mouth and love comes in at the eye"...

Difícil encontrar uma palavra para expressar exatamente o que senti quando encontrei esse poema, mas uma chega perto: serendipidade.

Outros casos não foram assim, tão coincidentes -- mas sempre associo o que leio ao que vivo ou presencio... Não sei ler de outra forma. Se um livro não me diz nada sobre minha vida, me desinteressa. No máximo, aprecio a forma, o deslindar da intriga, o embalo do som -- como quando em restaurante tem música de fundo.

Certa vez li um livro de Umberto Eco (Confissões de um jovem romancista), em que o semioticista italiano me dá uma bronca por ser um leitor assim como sou. Nunca superei esse acontecimento em minhas retinas. Até que encontrei em Homero a vindicação de meus modos de leitor.

No canto VIII da Odisseia, Ulisses (ou Odisseu) chega à terra dos Feácios e por eles é recepcionado, mas os anfitriões são ignorantes de que estão diante do idealizador do Cavalo de Troia. Nesse canto, Homero descreve três cantos de um aedo, ouvidos por Ulisses. O primeiro versava sobre a briga entre ele e Aquiles, e ter sua experiência assim lhe contada lhe trouxe lágrimas.

"a Musa inspirou o aedo a cantar as célebres façanhas de heróis:
era um canto cuja fama chegara já ao vasto céu —
a contenda entre Odisseu e Aquiles, filho de Peleu.
O tema era como outrora se injuriaram no banquete divino
com palavras violentas; e Agamémnon, Soberano dos Homens,
se regozijou no espírito, ao injuriarem-se os mais nobres dos Aqueus.
Pois assim lhe dera Febo Apolo uma indicação oracular,
na sagrada Pito, quando transpôs a soleira de pedra
para interrogar o deus. E daí rolou o início da desgraça
para Troianos e Dânaos, por vontade do grande Zeus.
Era isto que cantava o celebérrimo aedo. Mas Odisseu
com suas mãos possantes pegou na capa de púrpura
e com ela cobriu a cabeça, escondendo o belo rosto.
Sentia vergonha dos Feaces porque das pálpebras lhe corriam
lágrimas: na verdade, cada vez que o aedo fazia uma pausa,
Odisseu limpava as lágrimas e tirava a capa da cabeça;
e com a taça de asa dupla oferecia libações aos deuses.
Mas quando o aedo retomava o canto, quando lhe pediam
para voltar a cantar os Feaces, visto que as suas palavras
os deleitavam, Odisseu tapava de novo a cabeça para chorar".

Mais a frente o aedo retorna. Dessa vez, canta a traição de Afrodite com Ares contra Hefesto. 

"Foi então que, tangendo a sua lira, Demódoco começou
o belo canto dos amores de Ares e de Afrodite da linda coroa.
Cantou como primeiro fizeram amor em casa de Hefesto às ocultas
[...]
Assim cantou o célebre aedo. E Odisseu deleitou-se 
no seu espírito enquanto o ouvia; deleitaram-se também 
os Feaces de longos remos, famosos pelas suas naus". 

Ulisses era a face mais seca. Claro, sua esposa não lhe traíra, nem mesmo com tantos presentes de pretendentes que a assediavam sem cessar. Ulisses tinha confiança em Penélope. O episódio da traição de Afrodite nada tinha a lhe dizer sobre sua vida e, portanto, pôde deleitar-se com o canto.

O terceiro canto do aedo foi incitado pelo próprio Ulisses e versava sobre o Cavalo de Troia. Da mesma maneira que na primeiro canto do aedo, o terceiro levou Odisseu às lágrimas: "Foi este o canto do celebérrimo aedo. Mas Odisseu derretia-se a chorar: das pálpebras as lágrimas umedeciam-lhe o rosto".

Ora, se Homero disse, está dito: os poetas cantam nossas vidas.


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