Resenha sobre "A auto-representação (sic) de grupos marginalizados”
O artigo “A auto-representação (sic) de grupos marginalizados: tensões e estratégias na narrativa contemporânea”, publicado, em 2007, na revista Letras de Hoje, editada pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, e escrito por Regina Dalcastagnè, tem como objetivo a discussão a respeito da literatura feita por escritores pertencentes a grupos marginalizados, considerados, no artigo, como aqueles coletivos que sofrem discriminação ou rejeição pela cultura dominante devido a características como gênero, etnia, orientação sexual, classe social ou condição física. Para tanto, a autora escolhe três escritores como referência: Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins e Ferréz. Nesta resenha, deter-me-ei a citar Carolina e deixarei de lado os outros, tendo em vista que eles servem, a meu ver, apenas como reforço ao ponto central de discussão.
O argumento inicial da autora em favor da literatura produzida por escritores pertencentes a grupos marginalizados é a importância da diversidade de percepções do mundo. (Essa importância pode ser discutida mais a fundo em outra oportunidade. Por ora, tomemo-la como verdade). Essa diversidade de percepções seria suprida por autores de diferentes gêneros, etnias, sexualidades, classes sociais e condições físicas. A defesa dessa linha de raciocínio se baseia na ideia segundo a qual “pessoas posicionadas diferentemente [na sociedade] possuem experiência, história e conhecimento social diferentes, derivados desta posição”. Infere-se daí que só quem vive uma experiência pode falar bem sobre essa experiência. A autora reforça essa linha argumentativa ao citar Carolina Maria de Jesus: “é preciso conhecer a fome para descrevê-la”.
De fato, Carolina Maria de Jesus está correta. Mas nada se falou da fonte de conhecimento. Quis ela dizer que é preciso ter fome para falar da fome? Ou esse conhecimento pode ser indireto, mediado pela leitura, esta mesma uma forma de experiência? Esses questionamentos passam batido pela autora do artigo e são mesmo contraditos na conclusão do texto. Nela, Dalcastagnè afirma: “Os impasses da representação literária de grupos marginalizados apresentados aqui não insinuam, absolutamente, qualquer restrição do tipo quem pode falar sobre quem”. Ela continua: “Nem se pretende que a obra dos integrantes de grupos subalternos – de uma Carolina Maria de Jesus, por exemplo – possua alguma “pureza” especial, inacessível aos escritores da elite”. Ou seja, não é preciso ser uma “favelada” para poder falar sobre a favela.
Se o artigo falha nesse eixo argumentativo, não por isso ele deixa de ter seu mérito. Este se encontra no questionamento, incômodo às elites socioeconômicas, que a autora coloca bem: por que aquilo que se considera literatura coincide com as produções de um certo grupo, e não de outros?
Nesse sentido, a autora demonstra que não há diferenças na qualidade das obras, apenas na origem de seus autores. Para tanto, ela cita trechos do Quarto de despejo que mostram, pelo trabalho com a linguagem, ter grande valor literário. De fato, eles têm. E não só isso. O livro de Carolina está calcado na tradição literária brasileira. A autora do artigo lembra bem que a escritora paulista tece “uma grande galeria de personagens – algumas melhor caracterizadas, outras apenas esboços – que abrange especialmente os moradores da favela”. Nós lembramos que, resguardadas as devidas diferenças de época e de modos e objetivos de produção, é basicamente isso que faz Aluísio de Azevedo n'O cortiço. As duas obras se aproximam mesmo na comparação entre seres humanos e animais e na descrição das condições das favelas:
A) “as mulheres da favela (...) [p]arecem corvos, numa disputa”;
B) “eu já estava na favela, respirando o odor dos excrementos que se mescla com o barro podre” (grifos nossos).
Façamos um cotejo com a obra naturalista:
I. “Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio.
II. “E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
Voltamos então à pergunta: por que Aluísio é consagrado e Carolina não [tanto], no panteão de escritores? Esse é o ponto principal da discussão acerca da autorrepresentação de grupos marginalizados empreendida no artigo. É preciso colocar em pauta a exclusão cultural, não apenas socioeconômica, desses grupos, e como a superação destas desigualdades passa também pela democratização do fazer literário, que até hoje ainda é dominado pelas elites.
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