Ódio, compreensão e revolta no conto "O cachorro", de J. M. Coetzee
Este – ensaio, comentário? – tem como objetivo analisar o conto O cachorro, de J. M. Coetzee, à luz das ideias elaboradas por Antonio Candido em Crítica e Sociologia. Nesse texto, Candido avalia a relação entre a obra e o ambiente, entre literatura e sociedade, entre as considerações estéticas e as de outra ordem (em especial a sociológica, mas também a psicológica, e mais). A posição do crítico se encontra no meio do caminho entre dois extremos, a saber, de um lado, a sociologia tradicional, que, muitas vezes, reduz a obra a um mero documento histórico e quase que descarta o seu valor estético; do outro, a crítica formalista, que ignora o contexto histórico e social que moldou a própria estrutura da obra. Nesse sentido, Candido defende a síntese dessas oposições e argumenta que a obra literária é, ao mesmo tempo, um resultado de dados sociais e uma estrutura autônoma. Sendo assim, a realidade social não entra no livro apenas como "cópia" do real, mas é transformada estruturalmente em arte pelo autor.
Candido confirma essa verdade por meio de uma anedota, que conta ter Aluísio de Azevedo, durante a composição de O homem, consultado um amigo seu médico para levantar informações sobre o envenenamento por estricnina; mas o escritor naturalista não seguiu as indicações recebidas, não obstante o penhor científico de sua escola literária. Segundo Candido, essa atitude é reveladora da independência, digamos assim, do trabalho artístico (poiese) em relação à pretensão de se espelhar a realidade (mimese).
A partir dessa tendência de desfazimento da dicotomia tradicional entre os fatores externos e os internos, podemos prosseguir para a análise do conto de Coetzee. Comecemos por sumariar o enredo da narrativa (a parte interna), o qual está estabelecido sobre o tripé ódio-compreensão-revolta. Em seguida, refletiremos sobre os aspectos externos que permitem uma melhor apreensão dessa estrutura narrativa.
A estória de O cachorro é aparentemente simples, estruturada sob uma atmosfera de tensão constante e sutil. A narrativa acompanha uma jovem mulher que, em seu percurso diário de ida e volta do trabalho, é sistematicamente confrontada por um cão feroz. O animal não está solto; ele se encontra atrás dos limites de uma propriedade, espreitando e avançando contra a cerca com uma agressividade explosiva, com um ódio que dorme em latência e desperta com ferocidade. O ataque físico propriamente dito não acontece, mas existe a promessa constante dele. Essa dinâmica evoca na protagonista, e no leitor, um estado de vigilância e angústia. A repetição do trajeto e a inevitabilidade do encontro transformam o espaço público da rua em um território de ameaça psicológica, onde o medo passa a balizar os passos, os pensamentos e as emoções da personagem.
A mulher se sente indefesa, e mesmo humilhada por esse sentimento de medo incontrolável. Ela tenta sempre permanecer impávida, mas falha toda vez. Até que decide falar com os moradores daquela casa, os donos do cachorro, de modo a alcançar deles compreensão e solução para o conflito. A atitude da mulher é recebida com rechaço: “‘É a nossa rua’, diz a mulher. ‘Não convidamos você a passar por aqui. Pode pegar outra rua.’ O homem fala pela primeira vez. ‘Quem é você? Que direito tem de vir nos dizer como devemos nos portar?’”
Com essa iteração de microfísica do poder vem acoplada uma microrrevolta. A mulher sai do lugar, e o cachorro se atira, como de costume, contra a cerca, mas ela faz algo antes impensável para ela: “Com a calma que consegue ter, embora esteja tremendo, embora sinta ondas de medo que pulsam de seu corpo para o ar, ela olha para o cachorro e fala, usando palavras humanas. ‘Maldito, vá para o inferno!’”
Assim se acaba o conto. Agora podemos partir para o ponto de distinção das partes do texto que precisam do contexto histórico e social para ele ser melhor apreendido. E não é o leitor que precisa aqui ser um sociólogo, mas o próprio texto é composto de elementos que apontam para fora. O próprio narrador reflete sobre o gênero da protagonista e do cachorro, e se isso não seria a causa do conflito. Ele também revela discretamente que a mulher é imigrante e trabalha em um hospital (como muitos imigrantes). Aliás, em nosso ponto de vista, esses sinais explícitos, ainda que sutis, rebaixam o valor da obra, que se torna assim exacerbadamente didática, como se discute atualmente. Por outro lado, o mérito da estória está no que do social é miscível no enredo, na tensão geradora da narrativa, de modo a quase não ser perceptível, de tão incrustado que está sob o tecido narrativo.
Explico: a atitude conciliatória que a protagonista toma é o esperado de uma mulher. Naturalmente, isso é uma generalização. Em estudos psicológicos que utilizam os cinco grandes traços de personalidade, as mulheres, em média, apresentam pontuações notavelmente mais altas do que os homens no traço de conscienciosidade (associado à consciência). Essa diferença é mais evidente em subcategorias específicas da conscienciosidade: a) ordem (mulheres tendem a ser mais organizadas e metódicas), b) senso de dever (mulheres geralmente pontuam mais alto na observância de regras e obrigações éticas) e c) autodisciplina (mulheres demonstram maior controle de impulsos, o que auxilia na busca por objetivos de longo prazo).
Não que as mulheres sejam naturalmente dessa forma. Nessa questão, entra muito o modo pelo qual elas são socializadas (« On ne naît pas femme : on le devient »). Nesse sentido, se bem que tenha a má intenção de defender o patriarcado e o status quo, Camille Paglia elabora acertadamente a ideia de ser a civilização humana definida por uma luta tensa e violenta entre o princípio masculino e o feminino. O feminino simbolizaria a força caótica e procriadora da "Mãe Natureza"; já o masculino representaria as forças apolíneas de ordem, intelecto e estrutura necessárias para construir e sustentar a civilização. Ao longo dos séculos, a mulher teria sido então submetida e haveria interiorizado essa ordem dela esperada, até que esta tenha se tornado o único argumento que a mulher poderia usar para sua proteção contra os desmandos autoritários do homem. Em outras palavras, ela, coibida, enganada, ou mesmo consciente, aceita a orientação e o governo do homem, deixa de lado sua força caótica/criadora, e acaba, por fim, a apelar ao patriarcado pela defesa do que ele a havia prometido: a ordem, a proteção, a paz, a segurança, a prosperidade. Contudo, essa promessa revelou-se apenas um pretexto para a dominação do feminino pelo masculino, pretexto esse notado e combatido pelos diversos movimentos feministas. Ao fim e ao cabo, o conto de Coetzee absorve tudo isso.
Desse modo, concluímos que a internalização da conscienciosidade nas mulheres ao longo de milênios de socialização pode explicar o clímax do conto em questão, e, assim, alcançamos nosso objetivo de mostrar como o social se entranha na estrutura da obra. A protagonista, como uma boa mulher socializada, busca o autocontrole e, através do diálogo, procura suscitar o senso de dever nos donos do cachorro, só para, no fim, ser enxotada pelo homem, que, em sua explosão agressiva, age como o cachorro, seu espelho, e com o consentimento silencioso de sua esposa. No entanto, no desfecho, a protagonista experimenta uma leve e ligeira libertação dessas amarras sociais: mando o cão, e, com ele, a sociedade patriarcal inteira, ao inferno.
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