Literatura e a necessidade humana de significado

A palavra significado tem origem no latim, derivado de significare, que quer dizer "mostrar por sinais, signos". No âmbito da linguística, signo é uma entidade birrelativa, constituída inseparavelmente pelo significado e pelo significante. Ou melhor, assim é no Cours de Linguistique Générale (CLG), onde se distinguem o significante como a forma física (sons e letras) e o significado como o conceito mental associado.

Por sua vez, na semiótica de Peirce, o signo é uma tríade composta por significante (representamen/forma física), objeto (referente real) e interpretante (efeito mental/significado). Ele define o signo como algo que substitui algo para alguém, mediando a relação entre a mente e o mundo. É uma relação tríadica contínua, diferente da díade do CLG.

Eu prefiro o modelo de Peirce. O objeto real, no mundo, é de suma importância. Como anedota, posso contar certa ocasião em que marquei de ir ao cinema com um amigo, e, por termos referentes diferentes, acabamos por nos desencontrar. Pois, para mim, ir ao cinema significava ir ao do Iguatemi, já para ele, era o do Riomar.

Um outro exemplo de desencontro nos significados de certas palavras podemos encontrar na literatura, n'A insustentável leveza do ser, onde Milan Kundera elabora um pequeno léxico de mal-entendidos entre Franz e Sabine, um dos casais do romance.

Além disso, quando falo em amor, esse substantivo abstrato, penso em algo bem concreto: pessoas, ações, lugares -- certamente outras pessoas, outras ações e outros lugares que vêm a sua mente, leitor.

Assim, talvez sejam essas diferenças de referência que causam os mal-entendidos.

Seja como for, a mente humana sempre associa uma forma a um conteúdo e um conteúdo a uma forma. Assim é a pareidolia, fenômeno psicológico de ver rostos, animais ou objetos em nuvens ou manchas aleatórias. Associamos uma forma fortuita a uma forma familiar e esta a um conteúdo correspondente. Se vemos uma mancha na lua que nos faz lembrar um homem em um cavalo por cima de uma criatura monstruosa, é porque já temos na mente a imagem de São Jorge lutando com um dragão, e essa imagem carrega um significado cultural.

Assim, uma massa amorfa nunca pode ficar sem significado. Por mais inusitada que ela seja, buscamos atrelar a ela algum sentido. Isso é comum na arte e na linguagem, vide o surrealismo e o paradoxo. Livro e mesa, a priori, não são intercambiáveis. Posso, sem causar estranhamento, dizer "sentei-me à mesa para jantar", mas não vou passar despercebido se disser "sentei-me ao livro para jantar". A princípio, não serei entendido, mas logo meu interlocutor poderá reorganizar as ideias e entender, metaforicamente, que meu alimento aquela noite serão as palavras que repousam sobre o livro.

Essa necessidade de alimento espiritual, que vem das palavras, é a mesma necessidade humana de significado. As palavras, colocadas seja em enredos ou em imagens líricas, satisfazem essa nossa carência justamente por sua natureza de signo linguístico. Na literatura (em seu sentido mais amolo), as experiências, difusas, ganham uma forma e, com a forma, um conteúdo distinguível. Não é à toa que a literatura tenha nascido com os mitos. No poema de Hesíodo, o primeiro deus é o Caos, a massa amorfa, que só pode ser entendida pelas palavras, pelo canto das Musas, filhas da Memória, que conta o passado, o presente e o futuro -- enfim, o sentido de tudo.

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