"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas
Com efeito, em Os Sertões, Euclides da Cunha constrói o sertão como um espaço socialmente arcaico e politicamente marginal à nação republicana, marcado por estruturas que ele associa aos estágios “inferiores” da evolução social:
"a população tinha, engravescidas, todas as condições do estádio social inferior. Na falta da irmandade do sangue, a consanguinidade moral dera-lhe a forma exata de um clã, em que as leis eram o arbítrio do chefe e a justiça as suas decisões irrevogáveis. Canudos estereotipava o fácies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros".
Ao afirmar que a população possuía "todas as condições do estádio social inferior" e que se organizava como um "clã", regido pelo "arbítrio do chefe" e por uma justiça fundada em decisões pessoais e irrevogáveis, Euclides, a partir de um modelo interpretativo fortemente influenciado pelo evolucionismo e pelo determinismo do século XIX, descreve o sertão como um espaço regido por uma ordem pré-moderna, personalista e autoritária, distinta do ordenamento jurídico racional do Estado republicano. Além disso, em Os Sertões, a justiça sertaneja é descrita como "antinômica", onde o que vale é "o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro", o que reforça a ideia de que o sertão opera segundo uma lógica distinta daquela da civilização urbana e letrada.
Por sua vez, Guimarães Rosa, no episódio do julgamento de Zé Bebelo, coloca o sertão e o sertanejo em pé de igualdade, ou até de superioridade, com o urbano e civilizado, ao menos no tocante ao código e ao processo penal.
Após ser capturado, Zé Bebelo, em vez de aceitar passivamente a morte (destino comum aos inimigos vencidos na lógica da jagunçagem), exige um "julgamento correto legal". Esse pedido, que causa estranhamento entre os jagunços, já introduz um elemento decisivo: a substituição da vingança imediata por um processo deliberativo, ainda que realizado fora das instituições estatais. A princípio, o julgamento aparece como algo estranho aos costumes do sertão, quase como uma excentricidade. Os próprios jagunços comentam, ironizam, hesitam: ninguém sabe exatamente como aquilo deve funcionar. No entanto, Joca Ramiro, líder reconhecido por sua autoridade moral, aceita o desafio e organiza o julgamento como um verdadeiro ritual público. Ele conduz o prisioneiro por léguas até a Fazenda Sempre-Verde, reúne chefes, capatazes e jagunços, dispõe todos em posição solene e cria uma cena que, embora não siga os moldes do tribunal urbano, possui clara dimensão institucional. O momento mais simbólico ocorre quando Zé Bebelo, sentado no centro, convida os chefes a se "abancarem", isto é, a sentarem-se, recusando a hierarquia que o colocaria automaticamente como inferior e condenado. A princípio, o gesto é interpretado como afronta, quase uma provocação fatal. Mas Joca Ramiro, em resposta astuta e decisiva, aceita sentar-se diante do prisioneiro, instaurando uma situação de igualdade inédita naquele universo marcado pela violência e pela submissão ao chefe. Esse momento revela uma atitude moral, ética e jurídica superior ao que se via (e se vê) nas cortes, onde o juiz ocupava sempre uma posição elevada, num estrado ou tribuna mais alta, de onde exercia sua autoridade sobre todos os presentes. O réu, por sua vez, permanecia em posição inferior, geralmente em pé diante do juiz ou sentado em um banco mais baixo, por vezes separado por grades, o que reforçava sua condição de submetido ao julgamento.
Após isso, chega o momento de instaurar um espaço de palavra, escuta e acusação formal. A partir daí, qualquer um pode acusar, expor crimes, apresentar motivos, propor condenações, à maneira como estamos familiarizados sobre o andamento de um julgamento, digamos, oficial, segundo princípios de publicidade, contraditório e deliberação coletiva, ainda que com roupagem sertaneja. Podem interpelar, como imaginou Riobaldo que seu interlocutor faria, e dizer:
"― O que nem foi julgamento legítimo nenhum! só uma extração estúrdia e destrambelhada, doideira acontecida sem senso, neste meio do sertão... ― o senhor dirá".
Mas tem-se que admitir:
"Pois! por isso mesmo. Zé Bebelo não era réu no real! Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!".
Desse modo, o julgamento de Zé Bebelo se configura como um episódio importante no GSv. Riobaldo mesmo o reconhece:
"O julgamento? Digo! aquilo para mim foi coisa séria de importante. Por isso mesmo é que fiz questão de relatar tudo ao senhor, com tanta despesa de tempo e miúcias de palavras".
O episódio foi importante também para a construção do enredo, e funciona como um ponto de inflexão na narrativa, tendo em vista que, depois do julgamento, e em grande medida por causa dele, Joca Ramiro é assassinado pelo Hermógenes, e dá-se início ao protagonismo de Tatarana.
Sobretudo, o relato do julgamento é marcante do ponto de vista discursivo, na medida em que legitima o sertão e o sertanejo, que agora não pode ser mais visto como desprovido de leis, ou provido de leis antitéticas, em que vale mais a força, não o que é justo e correto, segundo a razão.
Justificação
Tendo feito legitimação, Riobaldo pode, então, fazer justificação dos atos seus e de seus jagunços. Os combates sanguinários do sertão não são advindos da natureza crua do sertanejo, apenas. Há, de fato, os irredimíveis, como Hermógenes, que encarnam a violência gratuita e a perversidade sem freio moral, mas há também os justiceiros, como o próprio Riobaldo, que procuram atribuir sentido ético à violência que praticam. Desse modo, Rosa afasta a ideia de uma brutalidade essencial do homem sertanejo e mostra que a violência no sertão se inscreve antes num campo de escolhas, valores e circunstâncias históricas, onde o jagunço não é apenas agente do mal, mas sujeito atravessado por dilemas morais e pela busca, ainda que contraditória, de justiça.
Outra justificação necessária para Riobaldo, não apenas diante do “doutor”, mas sobretudo diante de si mesmo, diz respeito à morte de Diadorim e à culpa que ele carrega por ela. Riobaldo sente-se responsável porque foi ele quem deu início à guerra contra Hermógenes, movimento que deslancha a cadeia de acontecimentos que culmina na morte de Diadorim. Ao rememorar esses fatos, Riobaldo tenta reavaliar suas escolhas, buscando compreender até que ponto foi agente consciente do destino trágico do amado (ou amada?) ou simples peça arrastada por forças maiores.
É mais ou menos, no caroço, a história de Paulo Honório e Madalena. O fazendeiro de São Bernardo se sente culpado por suas ações, que levaram ao suicídio da professora, e refaz seus caminhos por meio da narrativa, para tentar entender o que aconteceu. A conclusão a que chega é: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desse sertão agreste que me deu uma alma agreste".
A conclusão de Riobaldo é um tanto mais complexa, apontando como a raiz do mal não o meio, mas o humano. É como se dissesse: nós, sertanejos, no sertão, que é como qualquer outro lugar ("o sertão está em toda parte"), vivemos o mesmo embate, interno e externo¹, de forças do bem e do mal, e formamos uma "travessia" entre elas. Em outras palavras, não se pode dizer que o sertão represente a barbárie e o atraso, sendo a causa dos males do sertanejo, enquanto a cidade seja um resort de civilização e progresso.
Com efeito, "este mundo é muito misturado", e o "doutor" não pode ir da cidade para o sertão e julgar os atos dos sertanejos. O discurso de Riobaldo conclui, então, seu objetivo: o sertão está legitimado e justificado diante de todos, e afirmado como espaço pleno de humanidade, complexidade moral e de pensamento, e não como mero lugar de barbárie ou atraso.

Comentários
Postar um comentário