Natureza e cultura


A civilização ocidental, desde seu berço greco-judaico, passando por seus desdobramentos romano-cristãos, é predicada na hierarquia verticalizada da cultura sobre a natureza. Para Aristóteles, essa superioridade era um direito natural:

"animais existem para o bem do homem; os animais domésticos para uso e alimentação, e os animais selvagens (senão todos pelo menos a maior parte) para alimentação e outras carências, de modo a obtermos vestes e outros instrumentos a partir deles. Se a natureza nada faz de imperfeito ou em vão, então, necessariamente criou todos estes seres em função do homem" (Política, 1256b15).

Para o autor de Gênesis, é um mandamento divino:

"Deus os abençoou e Deus lhes disse: 'Tenham filhos e tornem-se muitos; encham e dominem a terra; tenham domínio sobre os peixes do mar, sobre as criaturas voadoras dos céus e sobre toda criatura vivente que se move sobre a terra'. Então Deus disse: “Eu lhes dou toda planta que dá semente, que há sobre toda a terra, e toda árvore que tenha frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês'" (Gênesis 1:28-29).

Assim, a cultura, na civilização ocidental, sobrepõe-se à natureza e a subjuga, como se fosse ela algo a ser dominado, controlado e instrumentalizado. Em outras civilizações, porém, é a natureza que se sobrepõe à cultura, colocando-se mesmo na posição de instrutora do ser humano, que nasce sem os meios naturais de sobrevivência que os outros animais gozam, além de nem mesmo saber como construir utensílios que compensem essa falta. É o caso da estória que Clemente Brandenburger narra em Lendas dos nossos índios: os Caxinauás, que "não possuíam casas e dormiam no chão, não possuíam panelas e comiam só carne assada"¹, foram ensinados por um João-de-barro a construir panelas e casas. 

Desse modo, a relação entre a natureza e os "homens verdadeiros" (huni kuin, como também são conhecidos os Caxinauás) não é verticalizada, mas horizontalizada; é uma relação de aprendizado e respeito: "os Caxinauás não matam o João-de-barro porque ele lhes ensinou tudo isso". O João-de-barro, uma "ave do céu", um "animal selvagem", não é tido como uma criatura a ser dominada e instrumentalizada, mas com quem se estabelece uma associação saudável, benéfica, construtiva, a partir da qual o ser humano recebeu uma vantagem, sem precisar tirar vantagem.

É bem certo que serem chamados de "homens verdadeiros" pode derivar de um sentimento de superioridade, como acontece com vários povos ao redor do globo que se consideram um grupo à parte, especial. Mas pensemos nesse epíteto, digamos assim, de uma maneira mais otimista: que ser verdadeiramente humano é respeitar a natureza e aprender com ela. Além disso, com isso em mente, talvez possamos abandonar essa antiga dicotomia, natureza versus cultura, e perceber que natureza e cultura não estão tão separadas assim - ou pelo menos não deveriam.


1. link para o livro

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