Estigma e verdade no conto O Barbante, de Guy de Maupassant
"A gente nasce só e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado". Creio ter Rachel de Queiroz dito a frase. Mas é uma verdade constatável por qualquer um. Na antiguidade, Aristóteles já declarara ser o homem um animal político e, por isso, sociável. Na Bíblia, o próprio Jeová afirmara não ser bom o homem estar só. As ciências também nos esclarecem -- e notável foi no período pandêmico -- que a alienação social compromete a saúde do corpo e da mente. Portanto, não se julgue o indivíduo que procura integrar-se no coletivo. Aliás, essa é, até onde sei, a demanda (queste) do herói em qualquer mito e em qualquer tragédia -- em que, no mínimo, há alguma tensão entre essas duas realidades, a individual e a coletiva. Se não for em todos os mitos nem em todas as tragédias, que se cite apenas uma, e já se comprove: Antígona.
Essa também é a "tragédia" n'O Barbante, conto de Guy de Maupassant. Deixemos de lado sua associação específica a uma escola literária e a um período histórico, bem como as interpretações genéricas (de gênero) -- se tragédia, ou comédia, ou os dois --, e miremos apenas a obra literária, e sua construção narrativa, para verificar como ela se baliza e se baseia nos conceitos de estigma e de verdade.
ESTIGMA
Pertencer significa "fazer parte de", mas também "ser propriedade de", a depender da construção frasal e do sentido que se dá ao sujeito gramatical: "o gato pertence àquela casa". O sujeito gramatical pode ser visto como um objeto que os habitantes daquela casa possuem, ou como um sujeito -- no sentido filosófico dos termos --, ou seja, como um dos habitantes daquela casa. Por outro lado, o movimento rebaixante do despertencer, isto é, o deixar de fazer parte ou o deixar de ser propriedade faz do sujeito gramatical um objeto, independentemente de seu estatuto anterior -- se sujeito ou objeto --, uma vez que pelo próprio ato da alienação, do ostracismo, o sujeito é reificado -- pois somente um objeto pode ser descartado, nunca um sujeito.
Esse descarte nasce de um estigma, e um estigma nasce desse descarte. Um sujeito é excluído de uma comunidade por ter uma certa característica indesejada, mas também a própria exclusão de um indivíduo de uma comunidade marca nele um atributo negativo.
No conto em questão, o estigma da personagem central (talvez não se possa falar em protagonista...) é revelado em estratos. O primeiro é o rótulo, a exterioridade: Hauchecorne é descrito como um camponês rude, "dobrado por suas dores". O segundo é o caráter individual: ele é rancoroso, ou melhor, não gosta de perdoar ("n’aime
pardonner") -- o litote deixa ambígua a postura do narrador, se sensível ou sarcástico; o homem é também parcimonioso ("économe") -- um eufemismo? --, não gosta de perder nada ("n’aime
rien perdre"). O terceiro estigma é de origem: ele é normando, verdadeiramente ("en vrai Normand"). Ele mesmo reconhece que, por ser normando, seria capaz do crime de que o acusam.
"Il rentre chez lui, honteux et rouge de colère. Il sait que s’il avait trouvé ce portefeuille, peut-être il l’aurait gardé, car il est malin, comme tous les Normands".
Esses três estratos, em conjunto, estigmatizam e, por isso, reificam Hauchecorne, que é ostracizado pela comunidade a que pertence, ou a que tenta pertencer: "Il se perd aussitôt dans la foule". Todas essas características estigmatizantes fazem a população de Goderville ver Hauchecorne como objeto, não como sujeito capaz de subir acima de seus estigmas e agir diferentemente do esperado, e a fazem zombar de sua tentativa de defender a verdade dos fatos. Ninguém mesmo se indignou com o roubo, pois só é possível se indignar com o que não se espera, e o ato era o esperado de um normando rancoroso, sovina e deficiente.
A VERDADE
Lacan proclamou que não importa se é verdade ou não que a mulher do ciumento patológico trai ou não o marido -- o ciumento continua sendo patológico, uma vez que a desconfiança nasce dos preconceitos e das percepções deturpadas do próprio ciumento, que projeta seus defeitos sobre os outros. Analogamente, age a população de Goderville com relação a Hauchecorne -- ela mesma não tem compaixão e não sabe perdoar ("On a l'air de sourire en l'écoutant"); ela mesma vive à procura de garantir seus víveres (Chacun raconte ses affaires, ce qu’il a acheté, ce qu’il a vendu"); ela mesma é rude e curvada em seu próprio corpo ("le corps plié par tous les durs travaux"); e, principalmente, ela mesma é normanda -- Goderville se encontra na Normandia.
Não obstante, o homem tenta provar sua verdade -- pois disso depende sua vida. Como discutido acima, o indivíduo que não se coletiviza morre -- e no conto a morte é literal. A busca de se fazer acreditar é a buscar de se fazer pertencer -- mesmo que a um corpo social doente, como revela Maupassant nesse e em outros contos. Com efeito, depois que passou o perigo da alienação por meio da prisão, ele se despreocupou da polícia, mas continuou consternado com seus pares (se assim podemos chamá-los), que poderiam ainda condená-lo a uma prisão simbólica: o isolamento causado pela mentira (mensonge) que se contou, ainda que, do ponto de vista dos estigmas associados a ele, uma mentira verossímil. Inclisive, foi essa verossimilhança que permitiu sua história ter-se configurado como um conto ("Les moqueurs maintenant lui faisaient raconter 'La ficelle' pour s'amuse").
CONCLUSÃO
Em suma, a trajetória de Hauchecorne n'O Barbante ilustra a tese de que a existência humana é indissociável do olhar do outro. Quando a comunidade de Goderville substitui a subjetividade do camponês pelo estigma, transformando o homem em um arquétipo de avareza e malícia normanda, ela retira dele o direito à verdade. Para o protagonista, provar que encontrou apenas um pedaço de fio e não a carteira perdida não é uma questão de honra abstrata, mas uma tentativa desesperada de repertencimento.
Assim, a tragédia reside no fato de que a verdade dos fatos é impotente diante da "mentira verossímil" socialmente construída pelos preconceitos coletivos. Ao ser reificado, Hauchecorne é lançado no isolamento simbólico, a antecâmara da morte física: a impossibilidade de ser acreditado equivale à expulsão do mundo dos vivos. Assim, o conto de Maupassant corrobora a ideia de que, se nascemos e morremos sós, é no intervalo entre esses dois abismos que a validação do coletivo, mesmo um cheio de defeitos, torna-se o único oxigênio de um indivíduo. Ou seja, sem o laço da confiança mútua, o indivíduo, como o herói trágico, desintegra-se, restando-lhe apenas o eco de uma voz que ninguém mais se dispõe a ouvir como verdade nem digna de ser lembrada.
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