Filha contra o pai: Duas visões sobre o progresso do conhecimento

    Mary Shelley, née Mary Wollstonecraft Godwin, era filha do anarquista (ou assim o consideraram) William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft. Naturalmente, cresceu para ser intelectual, mas, em vez de seguir na filosofia política, como os pais, enveredou pela ficção. Mas nem por isso deixou de tecer comentários acerca dos assuntos correntes de seu tempo. Afinal, o romance, como já afirmou Antonio Candido, "exprime a realidade segundo um ponto de vista [...] analítico e objetivo"¹. E o ponto de vista da autora de Frankenstein vai de encontro ao de seu pai, ao menos quando o assunto é o progresso do conhecimento. 

    Em seu tratado Enquiry Concerning Political Justice, Godwin escreve: "The extent of our progress in the cultivation of knowledge, is unlimited. Hence it follows that human inventions, and the modes of social existence, are susceptible of perpetual improvement"². 

    Mary Shelley, por sua vez, critica essa ideia logo nos primeiros capítulos de Frankenstein. A escritora inglesa descreve Victor como alguém ávido pelo conhecimento, pelo progresso da ciência e pela descoberta de avanços capazes de melhorar a vida dos homens, mas coloca essa procura como a causa de todos os males por que passa o químico, que, ruminando e recontando sua história, percebe o que deixou de lado em favor da satisfação de seus apetites de grandeza. Ele perde todo o verão, fechado em seu laboratório, e, ironicamente, deixa de aproveitar a natureza em sua busca pelos segredos dela. Ele negligencia também suas relações afetivas, que antes eram sua maior felicidade. 

    O Frankenstein, cumprindo sua vocação de romance "de elaborar conscientemente uma realidade humana" por meio da fantasia¹, expõe sua faceta de tratado sobre a moral, quando Victor afirma: "Learn from me, if not by my precepts, at least by my example, how dangerous is the acquirement of knowledge, and how much happier that man is who believes his native town to be the world, than he who aspires to become greater than his nature will allow"³. 

    Com isso, Mary Shelley propõe acabar com qualquer investigação científica? Não. Mas ela critica a ideia de avanço ilimitado. Para ela, os afetos, os prazeres simples, têm primazia sobre os progressos e prazeres do conhecimento. E ela nos deixa uma regra para sabermos a hora de parar: "If the study to which you apply yourself has a tendency to weaken your affections, and to destroy your taste for those simple pleasures in which no alloy can possibly mix, then that study is certainly unlawful, that is to say, not befitting the human mind"⁴. 



1. "Complexo e amplo, anticlássico por excelência, [o romance] é o mais universal e irregular dos gêneros modernos. Mais ou menos eqüidistante da pesquisa lírica e do estudo sistemático da realidade, opera a ligação entre dois tipos opostos de conhecimento; e como vai de um pólo ao outro, na gama das suas realizações, exerce atividade inacessível tanto à poesia quanto à ciência. O seu fundamento não é, com efeito, a transfigurada realidade da primeira, nem a realidade constatada da segunda, mas a realidade elaborada por um processo mental que guarda intacta a sua verossimilhança externa, fecundando-a interiormente por um fermento de fantasia, que a situa além do quotidiano em concorrência com a vida. Graças aos seus produtos extremos, embebe-se de um lado em pleno sonho, tocando de outro no documentário. Os seus melhores momentos são, porém, aqueles em que permanece fiel à vocação de elaborar conscientemente uma realidade humana, que extrai da observação direta, para com ela construir um sistema imaginário e mais durável" (Um instrumento de descoberta e interpretação).

2. O alcance do nosso progresso no cultivo do conhecimento é ilimitado. Consequentemente, as invenções humanas e os modos de existência social são passíveis de aprimoramento perpétuo (tradução livre).

3. Aprendam comigo, se não pelos meus preceitos, ao menos pelo meu exemplo, quão perigoso é o ato de adquirir conhecimento e quão mais feliz é aquele que acredita que sua cidade natal é o mundo inteiro, do que aquele que aspira a ser maior do que sua natureza permite.

4. Se o estudo ao qual você se dedica tende a enfraquecer seus afetos e a destruir seu gosto por aqueles prazeres simples nos quais nenhuma impureza pode se misturar, então esse estudo é certamente ilícito, ou seja, inadequado à mente humana.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Contrastes e contradições em "O Caderno", de Ágota Kristóf

"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas

Apontamentos linguístico-teológicos sobre a divindade de Jesus