Homero e a verossimilhança

Quem, ao assistir a um desses filmes de ação hollywoodianos, não ouviu ou proferiu, em protesto, a interjeição: "ô mentira!", e suas variantes? Até parece que, para se ter uma cena épica de ação, seja preciso recorrer à mentira, a recursos pouco ou nada convincentes. Mas Homero, pelo menos em uma passagem, nos versos que abaixo mostrarei, prova o contrário. Ele antecipa o protesto do leitor/ouvinte, e se justifica:

Ora todo o corpo de Heitor estava revestido pelas brônzeas armas,
belas, que ele despira a Pátroclo depois de o matar.
Mas aparecia, no sítio onde a clavícula se separa do pescoço
e dos ombros, a garganta, onde rapidíssimo é o fim da vida.
Foi aí que com a lança arremeteu furioso o divino Aquiles,
e a ponta trespassou completamente o pescoço macio.
Mas a lança de freixo, pesada de bronze, não cortou a traqueia,
para que Heitor ainda pudesse proferir palavras em resposta.
(Canto XXII, v. 322-329).

Homero demonstra, nesse trecho da Ilíada, uma clara preocupação com a verossimilhança. O primeiro detalhe importante é a marca linguística que destaca a justificativa do cantor: a conjunção adversativa. Primeiro é dada uma situação, que, a priori, tornaria impossível a ação seguinte, principal para a continuação da história. Em seguida, a conjunção introduz a situação oposta. Assim, todo o corpo de Heitor estar revestido pelas armas de Pátroclo, que, na verdade, eram de Aquiles, e tinham origem divina, seria uma impossibilidade para Aquiles enterrar a lança em Heitor e consumar sua vingança. Mas, havia um espaço, em lugar bem conveniente, "onde rapidíssimo é o fim da vida". Dessa maneira, essa descrição minuciosa confere credibilidade à cena, também ao remeter a um conhecimento concreto da anatomia e dos efeitos de um ferimento grave.

Além disso, Homero justifica fisicamente o desenrolar da ação ao afirmar que, embora a lança tenha atravessado o pescoço de Heitor, ela não atingiu a traqueia. Esse detalhe não é gratuito, ele torna plausível o fato de o herói troiano ainda conseguir falar antes de morrer. Assim, a narrativa evita contradições internas e preserva a lógica dos acontecimentos, mesmo em um poema épico marcado pela presença do divino. Apesar do caráter mítico da obra, os acontecimentos seguem uma causalidade reconhecível e não deixam o leitor/ouvinte duvidar da plausibilidade das ações. 

Não é à toa que Homero está na base da literatura ocidental. Ele está aí para nos ensinar a contar uma história. Hollywood poderia aprender com ele.

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