Avatar 3, exploração da natureza e pacifismo
DOCE OU ATROZ, MANSO OU FEROZ
É do evangelho o exemplo do mais extremo pacifismo que se pode encontrar: "dar a outra face" (Mt 5:39; Lu 6:29). Mas é também no evangelho que se vê Jesus se revoltar contra o desrespeito (Mt 21:12; Lu 19:45; Mr 11:15; Jo 2:15). Sim, a Bíblia tem dessas contradições, e seguir à risca o que diz é indicativo de fundamentalismo preguiçoso, fuga à reflexão. E há quem diga ser reflexão relativismo. Na verdade, relativizar nada mais é que colocar cada coisa em seu lugar, que é justamente o que Kant propõe para resolver contradições conceituais.
Como, então, conciliar a exortação de Jesus, que ordena a não retribuição à violência, e suas ações no templo ("assim, depois de fazer um chicote de cordas, expulsou a todos do templo, com as ovelhas e os bois, espalhou as moedas dos cambistas e derrubou as suas mesas")?
Não há dúvidas, para mim, que a violência seja deplorável. Agressões, físicas ou morais, com certeza lancinam as vítimas e envilecem os perpetradores, mas, mais importante – e aqui se tem a conexão com a revolta de Jesus –, causam raiva nos de bom senso que as presenciam. Assim, dar a outra face, por parte da vítima, pressupõe o seu complementar, que é, por parte do algoz, dar um outro golpe, o que configura abuso. A constância dos ataques faz perder a paciência (do latim patientĭa, capacidade de suportar) até mesmo a Jesus.
Com efeito, dar a outra face significa não recorrer à vingança, pagar olho com olho, que um dia foi – e ainda muitas vezes é – chamado justiça. Isso, contudo, não quer dizer ficar calado, muito menos inerte, pois o silêncio traria a mesma consequência da vingança: a perpetuação da violência. Não é verdade que as doenças mais perigosas são as que não apresentam sintoma nenhum? De que outro modo se pode denunciar uma indignidade, senão demonstrando indignação? Quem tiver ouvidos, ouça.
É nesse momento que chamam o outrora doce atroz e feroz o essencialmente manso. Mas ser doce ou atroz, manso ou feroz, não é ser contraditório, inconsistente, é ser humano, íntegro, honesto – e, ao se falar de responsabilidade afetiva, é a isso que se referem. Muito pior é quando não há fronteira entre esses dois caracteres, isto é, quando se pretende doçura o que é atrocidade. E isso a Bíblia também pode ilustrar: o beijo de Judas (Mt 26:48; Lu 22:48; Mr 14:44), a mais agressiva das ações passivas. A literatura nacional também tem um exemplo semelhante, em Augusto dos Anjos: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro" (Versos Íntimos). Ou, ainda, a música pop americana: "he hit me and it felt like a kiss" (Ultraviolence).
Se não há clareza quanto ao que seja agressão – que pode até aparentar afago –, fica dificultada a resistência e fica sendo loucura a indignação. E, assim, tudo permanece do jeito que está. Afinal, por que mexer no time que está, supostamente, dando certo? Por que dar ouvidos a dissidentes, se eles são apenas loucos melindrosos que veem barbárie onde há civilização?
Portanto, se o silêncio e a passividade estão à serviço da reprodução de violações, que o verbo, doce ou atroz, manso ou feroz, seja o meio de exercer mudança em direção a uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas. Dar a outra face? Somente para beijos sinceros.
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