Avatar 3, exploração da natureza e pacifismo

ATENÇÃO! PODE CONTER SPOILERS!

Avatar: Fogo e Cinzas saiu e, como manda a tradição, eu e minha companheira fomos ver. Mas, antes, a curiosidade falou mais alto, e vimos algumas resenhas críticas (sem spoilers) sobre o filme, e todas desceram o pau no roteiro e na repetitividade dos temas e cores, estas últimas sendo justamente as duas pilastras da franquia de Avatar, a meu ver. 

O tema principal, que eu consigo divisar em Avatar, é o da exploração capitalista de Pandora, e como podemos nos importar com sua preservação sem antes vê-la pelas lentes da beleza? Outro tema, que já apareceu no Avatar: Caminho da Água, é o do pacifismo dos tulkuns, uma espécie cetácea altamente inteligente, que possui história e cultura ricas, chegando mesmo a compor música e poesia. Os tulkuns rejeitam, por uma tradição bem antiga, a violência, pois perceberam que ela só gera mais violência, em um ciclo vicioso. Eles levam o pacifismo tão a sério, que chegaram a ostracizar Payakan, um tulkun acusado de causar a morte de seu clã. Mas nada disso é verdade. A morte de seu clã está na conta de baleeiros da RDA (Resources Development Administration), que caçam e matam tulkuns, para extrair deles a amrita, uma substância capaz de parar o envelhecimento em humanos e, por isso, valem muito dinheiro. Esses baleeiros, covardes, se aproveitam do pacifismo e passividade dos tulkuns, pois, do contrário, tendo em vista a grande força dessas criaturas, eles não teriam nenhuma chance.

Aí entra a crítica ao pacifismo extremo, pois se descobre que os baleeiros planejam uma verdadeira chacina de tulkuns, em um momento espiritual para eles, em que todos, bebês, jovens e velhos, se reúnem para se conectarem com a Grande Mãe. A matriarca dos tulkuns, não sem antes rechaçar qualquer ato de violência, finalmente reconhece que não havia outra opção senão lutar, resistir, defender-se. 

O filme mostra, assim, que a exploração capitalista, a ganância e a maldade humanas não têm fim, não conhecem limites, razoabilidade, e não se deixam amaciar nem pelo sofrimento, nem pelo diálogo – elas só conhecem a linguagem da violência.

Com isso, lembrei de um texto que escrevi há mais de dois anos, mas que trata sobre esse assunto. Vou reproduzi-lo abaixo.

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DOCE OU ATROZ, MANSO OU FEROZ


É do evangelho o exemplo do mais extremo pacifismo que se pode encontrar: "dar a outra face" (Mt 5:39; Lu 6:29). Mas é também no evangelho que se vê Jesus se revoltar contra o desrespeito (Mt 21:12; Lu 19:45; Mr 11:15; Jo 2:15). Sim, a Bíblia tem dessas contradições, e seguir à risca o que diz é indicativo de fundamentalismo preguiçoso, fuga à reflexão. E há quem diga ser reflexão relativismo. Na verdade, relativizar nada mais é que colocar cada coisa em seu lugar, que é justamente o que Kant propõe para resolver contradições conceituais.

Como, então, conciliar a exortação de Jesus, que ordena a não retribuição à violência, e suas ações no templo ("assim, depois de fazer um chicote de cordas, expulsou a todos do templo, com as ovelhas e os bois, espalhou as moedas dos cambistas e derrubou as suas mesas")? 

Não há dúvidas, para mim, que a violência seja deplorável. Agressões, físicas ou morais, com certeza lancinam as vítimas e envilecem os perpetradores, mas, mais importante – e aqui se tem a conexão com a revolta de Jesus –, causam raiva nos de bom senso que as presenciam. Assim, dar a outra face, por parte da vítima, pressupõe o seu complementar, que é, por parte do algoz, dar um outro golpe, o que configura abuso. A constância dos ataques faz perder a paciência (do latim patientĭa, capacidade de suportar) até mesmo a Jesus.

Com efeito, dar a outra face significa não recorrer à vingança, pagar olho com olho, que um dia foi – e ainda muitas vezes é – chamado justiça. Isso, contudo, não quer dizer ficar calado, muito menos inerte, pois o silêncio traria a mesma consequência da vingança: a perpetuação da violência. Não é verdade que as doenças mais perigosas são as que não apresentam sintoma nenhum? De que outro modo se pode denunciar uma indignidade, senão demonstrando indignação? Quem tiver ouvidos, ouça.

É nesse momento que chamam o outrora doce atroz e feroz o essencialmente manso. Mas ser doce ou atroz, manso ou feroz, não é ser contraditório, inconsistente, é ser humano, íntegro, honesto – e, ao se falar de responsabilidade afetiva, é a isso que se referem. Muito pior é quando não há fronteira entre esses dois caracteres, isto é, quando se pretende doçura o que é atrocidade. E isso a Bíblia também pode ilustrar: o beijo de Judas (Mt 26:48; Lu 22:48; Mr 14:44), a mais agressiva das ações passivas. A literatura nacional também tem um exemplo semelhante, em Augusto dos Anjos: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro" (Versos Íntimos). Ou, ainda, a música pop americana: "he hit me and it felt like a kiss" (Ultraviolence). 

Se não há clareza quanto ao que seja agressão – que pode até aparentar afago –, fica dificultada a resistência e fica sendo loucura a indignação. E, assim, tudo permanece do jeito que está. Afinal, por que mexer no time que está, supostamente, dando certo? Por que dar ouvidos a dissidentes, se eles são apenas loucos melindrosos que veem barbárie onde há civilização?

Portanto, se o silêncio e a passividade estão à serviço da reprodução de violações, que o verbo, doce ou atroz, manso ou feroz, seja o meio de exercer mudança em direção a uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas. Dar a outra face? Somente para beijos sinceros. 


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