Que mistério tem Clarice?

Sabe quando você grifa as partes mais importantes de um texto e acaba marcando tudo porque tudo é importante? Pois bem. É assim com os livros de Clarice Lispector. Cada palavra, cada frase construída parece estar ali pois foi pensada, sentida, refletida profunda e longamente. É como os óleos essenciais -- substâncias naturais ultraconcentradas extraídas das plantas, de suas flores, sementes, raízes e cascas, enfim, de sua matéria viva e morta. 

Assim parece ter sido o processo criativo de Clarice -- ela recolhia toda a sua vivência interior, individual e coletiva, tudo que ainda estivesse latente ou já seco, encrostado, misturava e torcia até sair a quintessência da experiência humana. Suas obras não são longas, extensas, como as de seu contemporâneo Guimarães Rosas, por exemplo, cujas obras formam grandes calhamaços de seiscentas páginas. Com efeito, Clarice produz livros bem condensados, enxutos de tudo que não precisa ser dito, das transições que levam o leitor de um ponto importante da narrativa a outro, como pontes sobre rios, entre terra firme e terra firme. Em Clarice, por outro lado, o leitor é levado a atravessar esses rios narrativos e, por vezes, o rio é toda a narrativa. Não porque sua escrita é difícil, complexa, mas porque é profunda e exige imersão. Sem ser simplista, é simples, como ela queria: "que ninguém se engane, a simplicidade só se alcança com muito trabalho".

Não à toa foi Clarice um mistério para professores e acadêmicos, que não entendiam sua obra, enquanto jovens do colegial o conseguiam, como a própria autora reflete em famosa entrevista. A simplicidade da escrita clariciana exige trabalho tanto da escritora como dos leitores e leitores -- o trabalho de adentrar o próprio âmago, de percorrer o labirinto interior até encontrar o minotauro -- ou a barata, no caso de G.H. Lembrando a metáfora do rio, a leitura da obra de Clarice é um mergulho dentro de si e dos acontecimentos psíquicos que fluem em fluxo de consciência -- e assim sair da terra firme dos acontecimentos cotidianos e externos. Vai ver é por isso que a autora começa a narrativa de Uma aprendizagem... com uma vírgula e a termina com um dois-pontos -- o texto é rio, entre-margens. 

Então, que mistério tem Clarice? Como explicá-lo? Como explicar um banho de rio ou de mar? É preciso se molhar...

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