Contra purismos

Os judeus, pelo menos os retratados no Tn''k, são exímios puristas, apegados à santidade, que denota limpeza. Assim, odeiam tudo que é estrangeiro, e não se misturam com a gentalha dos gentios, pois estão convencidos de sua superioridade étnica. Com isso em mente, escreve Esdras:

[...] os príncipes se dirigiram a mim e disseram: “O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas não se separaram dos povos das terras ao redor e das suas práticas detestáveis, as práticas dos cananeus, dos hititas, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios e dos amorreus. Eles tomaram algumas das filhas deles como esposas para si e para os seus filhos. Agora eles, a descendência santa, se misturaram com os povos das terras ao redor. Os príncipes e os subgovernadores foram os que mais praticaram essa infidelidade.” Assim que ouvi isso, rasguei a minha túnica e a minha capa, arranquei cabelos da minha cabeça e pelos da minha barba, e me sentei, profundamente abalado" (Esdras, capítulo 9, versículos 1 a 3, grifo meu).

Rasgar a túnica e arrancar os cabelos da cabeça significam, ao mesmo tempo, tristeza e culpa, vergonha diante de Deus. Desse modo, terem os judeus adotado práticas estrangeiras causa em Esdras essa reação. No entanto, tal reação é comum a outros povos, não é exclusiva dos judeus, nem dos semitas (para incluir os árabes e os muçulmanos), revelando que culturas não são puras, mas têm pontos em comum entre si. Vejamos um trecho da Ilíada:

"Assim falou; e uma nuvem negra de dor se apoderou de Aquiles.
Levantando com ambas as mãos a poeira enegrecida,
atirou-a por cima da cabeça e lacerou seu belo rosto.
Sobre a sua túnica perfumada caiu a cinza negra.
E ele próprio, grandioso na sua grandiosidade, jazia
estatelado na poeira e com ambas as mãos arrancava o cabelo" 

(Canto XVIII, versos 22 a 27).

Como bem se vê, Aquiles arranca o cabelo por sentir-se profundamente triste e culpado pela morte de Pátroclo. Ele também joga a terra sobre a cabeça. Josué faz o mesmo:

"Josué rasgou as suas roupas e se prostrou com o rosto por terra diante da Arca de Jeová até o anoitecer, ele e os anciãos de Israel, e jogaram pó sobre a cabeça" (Josué, capítulo 7, versículo 6, grifo meu).

Em resumo, nenhum povo, nenhuma cultura pode reivindicar a primazia, a superioridade sobre outras culturas. Há muitas diferenças, mas também muitas semelhanças. O choque de cultura pode acontecer, mas o ser humano é o mesmo em qualquer canto, e é capaz de guerras e conflitos, mas também de harmonização. Não há jugo desigual, nesse sentido. A pureza, a separação em mundos, só foi nociva e impeditiva à paz, à prosperidade, à criação de relações. Ser puro é ser insípido. Mesmo a água potável não é pura. Contém sais e minerais importantes para o funcionamento dos organismos. Nesse sentido, a pureza da água destilada pode impedir contaminação, mas também impede a ingestão de elementos essenciais. Por esse motivo, sou contra purismos.


P. s.: há muitos outros pontos de contato entre os textos bíblicos e os de outras culturas, como exemplo: Enûma Eliš, Gilgamesh, Ludlul Bel Nemequi, Diálogo entre um homem e seu Ba, entre tantos outros. Entretanto, o mote desse texto se deu pela ironia da passagem do livro de Esdras, que lamenta a união entre culturas diferentes, mas o faz com uma prática compartilhada por essas e outras culturas mais distantes. Sim, distantes, pois gregos e hebreus só tiveram contato considerável no período helenístico.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Contrastes e contradições em "O Caderno", de Ágota Kristóf

"Tudo que fiz, valeu por bem feito": legitimação e justificação no Grande Sertão: veredas

Apontamentos linguístico-teológicos sobre a divindade de Jesus