Traição ou trapaça? Duas formas de ver o adultério.
A Goethe é atribuída a frase: "Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada da própria". Obviamente, "nada" é um exagero, mas certamente conhecer outras línguas é importante para conhecer a própria. Isso oferece perspectivas, abrange horizontes, não só no campo linguístico, expressivo, mas também cultural, no modo de ver e entender o mundo. Por exemplo, podemos entender a forma como falantes do português veem o adultério comparando-a à maneira que falantes do inglês o consideram.
Em inglês, usam o verbo cheat, que também é usado em contextos de trapaça em jogos. Ou seja, podemos pensar que o adultério, para eles, é uma trapaça, um desrespeito às regras consuetudinárias. Em português, isso não acontece. A palavra trair é usada para casais, mas também para amigos, companheiros, e até mesmo modos de ser e de pensar: "traiu os princípios em que acreditava"; "o assaltante traiu o companheiro, entregando-o às autoridades".
Essa amplitude semântica da palavra trair sugere que, para os falantes do português, o adultério não se reduz a uma infração de regras previamente acordadas, como ocorre na noção de cheat. Há, antes, a ideia de ruptura de um vínculo de confiança, de quebra de lealdade, algo que ultrapassa o contrato e atinge o campo moral e afetivo. Trair não é apenas “fazer algo proibido”, mas ferir uma relação que se sustentava na expectativa de fidelidade, seja ela amorosa, ética ou ideológica.
Nesse sentido, o adultério, em português, aproxima-se de outras formas de traição que envolvem deslealdade pessoal. A palavra carrega um peso emocional considerável: quem trai não apenas erra, mas decepciona, frustra, rompe um laço invisível que mantinha as partes unidas. Por isso, a traição costuma ser associada à dor, ao ressentimento e à quebra de confiança, sentimentos que permanecem mesmo quando a relação formal já não existe mais.
Já o uso de cheat em inglês parece colocar o foco em outra dimensão: a da regra violada. Assim como se “trapaceia” em um jogo ao burlar normas estabelecidas, também se “trapaceia” em uma relação amorosa ao não respeitar os combinados implícitos ou explícitos. O centro da ação não é tanto a quebra de lealdade pessoal, mas o descumprimento de um acordo. A metáfora do jogo sugere uma lógica quase procedimental: há regras, e alguém as infringiu.
Essas diferenças lexicais não significam, evidentemente, que falantes de inglês sintam menos dor ou indignação diante do adultério, nem que falantes de português o vivenciem de modo homogêneo. Contudo, revelam como a língua organiza a experiência e orienta a interpretação dos fatos. Ao nomear o adultério como trapaça ou como traição, cada idioma enfatiza aspectos distintos do mesmo fenômeno: de um lado, a infração; de outro, a deslealdade.
Assim, voltando à frase atribuída a Goethe, conhecer outras línguas não nos ensina apenas novas palavras, mas nos obriga a reconsiderar as nossas próprias. Ao comparar cheat e trair, percebemos que o adultério pode ser entendido tanto como quebra de regras quanto como ruptura de confiança — e talvez seja exatamente nessa tensão entre norma e afeto que reside a complexidade do tema.
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