Quando não se pode mais mudar tanta coisa errada...

vamos viver nossos sonhos... temos tão pouco tempo...

Vivemos em um tempo em que a sensação de impotência diante das injustiças sociais se intensifica. Guerras, desigualdades, degradação ambiental, tensões políticas, tudo parece grande demais para ser mudado por pequenos grupos que ainda se mobilizam, quem dirá por um único indivíduo. É nesse cenário que surgem reflexões como a música de Charlie Brown Jr. A ideia que abre esse texto carrega ao mesmo tempo o peso do desânimo coletivo e o desejo íntimo de uma vida plena. Ela desperta em mim sentimentos contrastantes, tendo em vista a minha recusa em viver só para mim mesmo, esquecendo de todos os problemas do mundo, e também minha impotência diante de tudo isso, o que me leva a tentar viver minha vida, realizar meus sonhos, enquanto há tempo.

Os defensores desta perspectiva afirmam que, sim, o tempo humano é limitado, e não apenas em escala biográfica, mas também em âmbito psíquico. Envolver-se de forma obsessiva com os problemas do mundo pode gerar um desgaste que impede o indivíduo de viver de modo pleno. A filosofia existencialista enfatiza precisamente essa finitude: Heidegger lembra que o ser humano é um ser-para-a-morte, e essa consciência torna cada gesto significativo.

Assim, “viver os sonhos” não é sinônimo de egoísmo, mas de autenticidade: dedicar-se ao que nos move e nos fortalece internamente. E, nesse sentido, cumprir nossos projetos pessoais pode ser uma forma profunda de resistência ao caos.

Além disso, há um argumento ético-relacional poderoso. Se temos pouco tempo, talvez a forma mais concreta de transformar o mundo esteja nas relações cotidianas. Tratar bem familiares, amigos, colegas e até desconhecidos não é apenas uma escolha privada, é um gesto de civilidade capaz de irradiar mudanças. Pequenas ações, como cuidar de alguém, oferecer ajuda, cultivar a amizade, amar, moldam microcomunidades que, por sua vez, compõem o tecido moral da sociedade.

Nesse sentido, alguns diriam que viver bem já é fazer o bem, que os sonhos individuais, quando ligados ao afeto, ao cuidado e ao convívio, possuem um poder transformador maior do que muitas utopias políticas abstratas. Ao realizar nossos projetos com gentileza e responsabilidade, estamos corrigindo, ainda que em escala mínima, “tanta coisa errada” no mundo. Não se trata de desistir, mas de deslocar o foco para onde nossa ação é mais eficaz e mais real.

Por outro lado, uma crítica importante surge: a ideia de que já não se pode mais mudar o mundo é, ela mesma, uma construção perigosa. Abandonar a luta contra o absurdo é permitir que ele vença. Ignorar a injustiça sob o pretexto de que o tempo é curto pode ser uma forma confortável de se omitir.

As grandes transformações históricas (direitos civis, educação pública, democracia, conquistas trabalhistas) ocorreram porque pessoas comuns se recusaram a aceitar que “não dava mais para mudar”. Mesmo quando tudo parecia perdido, alguém resistiu. A justiça é, muitas vezes, alimentada por aqueles que acreditam que a mudança ainda é possível, mesmo em meio à desesperança.

Há ainda o risco de que “viver nossos sonhos” se torne um slogan individualista, desconectado da responsabilidade coletiva. Uma vida voltada apenas para objetivos pessoais corre o perigo de se fechar em si mesma, tornando-se indiferente à dor do outro. A liberdade individual deve implicar responsabilidade pelo mundo, senão ela mesma corre perigo. Assim, ao escolher viver apenas para si, escolhe-se, ainda que silenciosamente, pela manutenção do status quo.

Além disso, abandonar a busca por justiça pode significar aceitar que a injustiça vença. Sonhar não substitui lutar; viver bem não torna automaticamente o mundo bom. A bondade cotidiana é essencial, mas não resolve problemas estruturais que exigem ação política, mobilização e coragem cívica.

Se colocarmos ambas as perspectivas em diálogo, surge uma visão mais equilibrada: viver os sonhos e buscar um mundo mais justo não são posturas opostas, mas dimensões complementares da vida ética.

É verdade que temos pouco tempo. É verdade que as pequenas ações do dia a dia, o cuidado, a solidariedade, o amor, são transformadoras. Mas também é verdade que a justiça, ainda que utópica, é um horizonte que não deve ser abandonado.

A força dessa síntese está em compreender que viver nossos sonhos não precisa significar se afastar do mundo; ao contrário, nossos sonhos podem ser modos concretos de torná-lo melhor. Ser justo, gentil e decente com quem convive conosco não é um gesto pequeno, mas uma forma de tecer o tipo de sociedade que desejamos ver ampliada.

A verdadeira questão talvez não seja se devemos escolher entre transformar o mundo ou viver bem, mas como transformar o mundo vivendo bem, e como viver bem transformando o mundo. Essa reconciliação mostra que, mesmo diante do tempo curto, nossas ações continuam a carregar significado. Elas podem ser pequenas, sim, mas não são irrelevantes. Porque, no fim das contas, justiça e sonho não são destinos opostos: são caminhos que, quando trilhados juntos, dão forma a uma vida verdadeiramente humana.

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