PLATÃO E A POLÍCIA

N'A República, Platão imaginou uma cidade ideal na qual cada indivíduo cumpriria a função para a qual fosse mais apto. Entre os grupos que a compunham, havia os guardiões, homens e mulheres treinados para proteger a cidade, preservar a ordem e garantir a justiça. Para o filósofo, a função desses guardiões era nobre e exigia não apenas força física, mas, sobretudo, virtude moral. O verdadeiro guardião não deveria lutar por si mesmo, nem por riquezas ou poder, mas pelo bem comum. Sua alma deveria ser domada pela razão, equilibrando coragem com sabedoria e obediência às leis.

Platão temia que, sem uma formação ética e filosófica, os guardiões se tornassem tiranos armados. Por isso, defendia que sua educação deveria unir ginástica e música, isto é, disciplina do corpo e cultivo da alma. O guardião ideal seria aquele que, mesmo tendo o poder de usar a força, só o faria em nome da justiça. Ele não seria servo da violência, mas instrumento da ordem racional.

Contudo, ao observarmos muitas forças de segurança do mundo contemporâneo, percebemos como o ideal platônico parece distante da realidade. Em vez de guardiões guiados pela ética, frequentemente vemos instituições corrompidas pela ambição, pela vaidade e pela ideologia. Policiais e militares, que deveriam proteger a cidadania, às vezes se tornam agentes do medo, envolvidos em esquemas de corrupção, abusos de autoridade e até tentativas de golpe contra a própria democracia que juraram defender.

Platão alertaria que isso ocorre quando os guardiões se esquecem de que sua missão é servir, e não dominar. Quando a educação moral é negligenciada e o treinamento se reduz à obediência cega ou à violência, a alma do guardião se desfigura. Ele deixa de ser defensor da justiça e passa a ser instrumento da injustiça. Em vez de proteger o povo, passa a proteger interesses particulares ou ideológicos, traindo o princípio básico da polis, o bem comum.

Repensar as forças de segurança à luz de Platão significa, portanto, recuperar o sentido ético do poder. Não basta formar soldados fortes, é preciso formar cidadãos conscientes, capazes de distinguir o justo do injusto e de agir com prudência mesmo diante da autoridade. A força, sem filosofia, é brutalidade; a obediência, sem reflexão, é servidão.

Talvez seja utópico imaginar uma polícia moldada pela ética platônica, mas o ideal continua necessário. Platão não escrevia para descrever o que é, mas o que deveria ser. Se suas palavras ainda ecoam, é porque continuam a nos lembrar que a verdadeira segurança não nasce das armas, e sim da justiça. Uma cidade só é protegida quando seus guardiões são, antes de tudo, guardiões da virtude.

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