palavra, viva!
certa vez, confessei uma tia minha que não lia muito e que se um livro não me cativasse nas primeiras páginas desistia dele. às vezes eu leio palavras como quem espera o trovão mas vem só o ruído de um fósforo molhado. não é culpa delas — é que há dias em que nem o céu me atravessa. é que não é toda palavra articulada que consegue transpor a crosta do meu psiquismo, que endureceu com os dias que passei sem espanto. mas ele, ainda que bem rígido como a crosta terrestre, também como ela é cheio de pequenas frestas (there is a crack in everything, that's where the light gets in - meu xará cohen), e alguns — e só alguns —escritos/escritores conseguem lançar suas flechas por essas brechas e rasgar meu interior - como quer kafka que seja a obra de arte. mesmo aquelas palavras mais líquidas, mais moles, mais alveolares, quando tocam aquela massa amorfa do pensamento e lhe dão forma, geram uma descarga que eletrifica o espírito, que fica quase sem saber como aquilo veio a ser. é por isso que eu adoro literatura e arte e porque sempre estou à sua procura, em voltas com ela. porque desperta meu espírito que na maior parte do tempo está depressivo, mórbido, perdido, fudido, errante — errare humanum est. é uma experiência oposto à alegoria da caverna de platão. é reacender a chama de dentro, não buscar pela que está fora. me perco com frequência, por dentro. mas às vezes uma linha, uma imagem, uma pausa bem colocada numa frase, uma metáfora que mordisca — tudo isso me reorienta, nem que seja por alguns segundos. a arte me ancora sem me prender. ela me liberta sem prometer salvação. talvez por isso eu volte sempre: não como quem busca cura, mas como quem aceita a ferida — como quer lacan. não é como coçar a casquinha na pele, inadvertidamente, e sentir o sangue escorrer. é a infusão de adrenalina que faz o sangue correr, como magma, e a pele tremer, como um terremoto nos meus nervos e um tsunami nos meus olhos. enfim, como quando o pequeno esquilo sai da hibernação e o calor volta para o corpo, para os membros: estou vivo — sinto.
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