Sarrasine mise en abyme

Podemos aceitar, como na tirinha de Lartes*, com notável indiferença, a morte de Deus ou o fim da Arte, mas jamais conseguiremos ouvir, sem espanto ou assombro, que o amor seja ilusão. Nós nos agitaremos com violência, na tentativa de resistir ao epílogo desse único fio que mantém o tecido da realidade ainda cosido à consciência. Não importa quantos realistas, cínicos, pessimistas, niilistas e outros demônios afins tencionem (e, assim, tensionem) fazer crer o contrário, nossa psique -- nossa alma -- luta contra essa verdade. É dessa maneira que a Marquesa de Rochefide, personagem de Balzac, comporta-se.

Como é comum no universo de Balzac, essa personagem transita por diversos livros, reforçando a ideia de um mundo literário balzaquiano interconectado. Neste ensaio, contudo, serão consideradas suas aparições em Sarrasine e em Béatrix, pois essas duas histórias parecem estar relacionadas por meio do mecanismo mise en abyme.

MISE EN ABYME

A expressão francesa mise en abyme, que pode ser traduzida literalmente como "colocado no abismo", designa um procedimento estético e narrativo no qual uma obra de arte contém, dentro de si, uma réplica ou uma imagem em miniatura de si mesma, geralmente espelhada. Um exemplo emblemático desse espelhamento, na artes plásticas, encontra-se n'O Casal de Arnolfini, de Jan van Eyck, do período de ouro da arte holandesa.


No cerne dessa ideia de espelhamento reside o princípio da recursividade, ou seja, a propriedade daquilo que pode repetir-se um número indefinido de vezes (uma característica das línguas e também das narrativas). Essas iterações geram, com elas, interações entre estruturas, temas, personagens, tempos e espaços de uma narrativa dentro de outra (cf. Hamlet), bem como entre narrativas diversas, mesmo que de um mesmo autor, como é o caso da obra analisada neste ensaio. 

Além disso, uma particularidade do espelho (pelo menos dos espelhos planos) é a criação de imagens enantiomorfas, isto é, a mão direita torna-se a esquerda no reflexo. Nesse sentido, a recursividade não necessita ser totalmente igual, mas pode (e até deva) apresentar nuanças ou oposições, sem deixar de transmitir uma mesma ideia ou motivo narrativo. 

SARRASINE

Sarrasine começa em um baile luxuoso em Paris, no Élysée-Bourbon (esse fato é importante). O narrador descreve o ambiente ambivalente do fim da Restauração Francesa (Balzac coloca a história como se passando em novembro de 1830 (essa informação também é importante), portanto após a Revolução de Julho), demonstrando o belo ao lado do grotesco, a vida ao lado da morte. 

"Les arbres, imparfaitement couverts de neige, se détachaient faiblement du fond grisâtre que formait un ciel nuageux, à peine blanchi par la lune. Vus au sein de cette atmosphère fantastique, ils ressemblaient vaguement à des spectres mal enveloppés de leurs linceuls, image gigantesque de la fameuse danse des morts. Puis, en me retournant de l’autre côté, je pouvais admirer la danse des vivants !"

Essa construção antitética é como um presságio para o que se verifica no fim: esses aspectos opostos não estão, na verdade, lado a lado, mas um dentro do outro, como se o belo guardasse o grotesco, e a morte aguardasse a vida: "mes réflexions mélangées de noir et de blanc, de vie et de mort". 

Após essas divagações, o narrador introduz Madame de Rochefide, que ele convidara para o baile. Ela fica intrigada com um idoso muito estranho e frágil que circula pela festa. O narrador, para explicar quem é aquele homem e de onde vem a fortuna da família que dá o baile e matar a curiosidade da marquesa, leva a amiga para um lugar reservado, e decide contar uma história para ela, com o intuito de, com isso, ganhar seus favores sensuais (pois não sei se posso dizer românticos). 

"Le lendemain, nous étions devant un bon feu, dans un petit salon élégant, assis tous deux ; elle sur une causeuse ; moi, sur des coussins, presque à ses pieds, et mon œil sous le sien. La rue était silencieuse. La lampe jetait une clarté douce. C’était une de ces soirées délicieuses à l’âme, un de ces moments qui ne s’oublient jamais, une de ces heures passées dans la paix et le désir, et dont, plus tard, le charme est toujours un sujet de regret, même quand nous nous trouvons plus heureux. Qui peut effacer la vive empreinte des premières sollicitations de l’amour ?"

A partir desse momento, o narrador começa a contar a história de Sarrasine, criando uma narrativa dentro de uma narrativaO relato volta no tempo e foca em Ernest-Jean Sarrasine, um jovem escultor francês que vai morar na Itália. Lá, ele assiste a uma ópera e se apaixona perdidamente por uma cantora chamada Zambinella. Para ele, ela é a personificação da mulher perfeita: "Il admirait en ce moment la beauté idéale [...]. Quand la Zambinella chanta, ce fut un délire". Sarrasine fica obcecado, persegue a artista e ignora todos os sinais de que algo está errado, sendo mesmo instigado pelos obstáculos: "Les obstacles attisent l'amour dans mon coeur". No auge de sua paixão, o escultor descobre que ela não é o que parece ser: Zambinella é, na verdade, um castrati -- um homem que foi castrado na infância para manter a voz aguda, já que mulheres eram proibidas de cantar nos palcos de Roma. Desesperado e furioso por ter sido enganado por sua musa, Sarrasine tenta matar Zambinella, mas acaba sendo morto pelos guardas de um cardeal que protegia o cantor. 

Indagado pela marquesa o motivo pelo qual a contou essa história e o que ela tem de ver com a família Lanty, o narrador revela, então, que o velhinho decrépito do baile é o próprio Zambinella. O dinheiro da família anfitriã veio da carreira de sucesso dele. A essa altura, a marquesa já está farta, manda o narrador parar e o reprime.

"Vous m’avez dégoûtée de la vie et des passions pour longtemps. Au monstre près, tous les sentiments humains ne se dénouent-ils pas ainsi, par d’atroces déceptions ? Mères, des enfants nous assassinent ou par leur mauvaise conduite ou par leur froideur. Épouses, nous sommes trahies. Amantes, nous sommes délaissées, abandonnées. L’amitié ! existe-t-elle ? Demain je me ferais dévote si je ne savais pouvoir rester comme un roc inaccessible au milieu des orages de la vie. Si l’avenir du chrétien est encore une illusion, au moins elle ne se détruit qu’après la mort. Laissez-moi seule". 

A respeito deste pensamento da marquesa, podemos elaborar duas considerações. A primeira é que o sentimento dela se coaduna com o que a ideia que abre este ensaio. A marquesa se recusa a aceitar a ilusão do amor: "Si l’avenir du chrétien est encore une illusion, au moins elle ne se détruit qu’après la mort. Laissez-moi seule". E continua a se manter fiel: "les âmes pures ont une patrie dans le ciel ! Personne ne m’aura connue ! J’en suis fière".

A segunda consideração é que o sentimento de desgosto dela ("Vous m’avez dégoûtée de la vie [...]") faz eco ao sentimento de Sarrasine, no fim da história: "Plus d’amour ! je suis mort à tout plaisir, à toutes les émotions humaines". Esse eco nasce da semelhança entre a marquesa e o escultor, pois suas histórias estão mise en abyme. Vamos ver como.

BÉATRIX

Umberto Eco, que era um gênio, reprovava o leitor que lê literatura pelo viés da própria vida, de seus sentimentos e experiências. Até certo ponto, ele está correto. Mas o fato mesmo de Eco reconhecer a existência de leitores assim nos deixa perceber que, pelo menos em um primeiro momento, a literatura toca justamente nas cordas tensionadas em nossa mente e peito -- e só depois vem a reflexão e a análise crítica. Foi desse modo -- a refletir -- que ficou a marquesa no fim de Sarrasine: "Et la marquise resta pensive". Esse final "em aberto", se atado à história de Béatrix, pode ter um fechamento, dentre muitos possíveis.

Esse romance é posterior à novela Sarrasine no ano de publicação, mas é mais ou menos concomitante nos fatos narrados, tendo em vista o que se diz em Béatrix.

"For three years, from 1828 to 1831, Beatrix, while enjoying the last fêtes of the Restoration, making the round of the salons, going to court, taking part in the fancy-balls of the Élysée-Bourbon, was all the while judging men, and things, events, and life itself, from the height of her own thought" (grifo meu).

O romance leva no título o nome da própria Marquesa de Rochefide, Béatrix, e pode ser visto como um roman à clef. Mas, pela nossa leitura, é ele mesmo a chave de Sarrasine. Vejamos mais paralelos entre as duas narrativas.

Béatrix também tinha alma de artista, e o seria de fato se a época em que viveu fosse mais progressista¹. Ela também se apaixona por um cantor italiano (ou, mais especificamente, napolitano), Gennaro Conti². Esse artista é também um embuste, não obstante todo seu talento e charme³. Podemos, então, a partir da leitura de Béatrix, inferir que a marquesa, em Sarrasine, põe-se a refletir sobre sua própria paixão por Gennaro e suas repercussões, todos os atos socialmente reprováveis que essa paixão a levou a praticar.  

Com a leitura do capítulo VIII de Béatrix, podemos entender as reclamações da marquesa em Sarrasine: "Mères, des enfants nous assassinent ou par leur mauvaise conduite ou par leur froideur. Épouses, nous sommes trahies. Amantes, nous sommes délaissées, abandonnées. L’amitié ! existe-t-elle ?". É dela mesma que ela fala (ou talvez de sua amiga Félicité), de sua condição de mãe, esposa, amante e amiga, e de como tudo isso cai por terra. O marido é infiel, e ela o abandona e ao filho e foge com Conti, seu amante, que logo a ignora, e cuja relação abala sua amizade com Félicité.

Em suma, fica mais ou menos evidente o mecanismo do mise en abyme em Sarrasine e em Béatrix e entre essas duas obras. Conclusões mais precisas demandarão uma leitura completa do romance e um inventário detalhado das semelhanças e diferenças entre essas duas obras de Balzac. Ficam para o futuro.


1. "She was remarkable for what you provincials call originality, which is simply independence of ideas, enthusiasm, a feeling for the beautiful, and a certain impulse and ardor toward the things of Art. [...] there is nothing more dangerous for a woman. If she follows them, they lead her where you see me, and where the marquise came, — to the verge of abysses".

2. His is not a voice, my friend, it is a soul. When its song replies to certain ideas, certain states of feeling difficult to describe in which a woman sometimes finds herself, that woman is lost. The marquise conceived the maddest passion for him [...]".

3. "His nature is charming, apparently, and detestable beneath its surface. He is a charlatan in matters of the heart".

*tirinha de Laertes


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