Pode a arte consertar alguma coisa?
Vi o Valor Sentimental semana passada e só agora pude parar para comentar. Adiei a ida ao cinema para ver esse filme, pois não gosto de entrar no hype, como dizem (ainda dizem?). O filme é lindo, e há muito o que ser dito sobre ele -- e sobre o que fez ou não fez comigo. Mas não vou tecer comentários sobre o enredo, nem sobre a fotografia ou as atuações impecáveis. Quero falar do questionamento que ficou em mim, depois: pode a arte consertar alguma coisa?
Antes de responder se a arte pode consertar -- é preciso saber se ela faz -- alguma coisa, de qualquer modo. Muitas pessoas acham que a arte é apenas um enfeite ou algo para passar o tempo. Mas, na verdade, a arte é capaz de mexer com o que sentimos e com o que pensamos sobre a vida. Sartre, um filósofo que escreveu muito sobre literatura, acreditava que a arte tem uma função social clara. Para ele, o artista não escreve ou pinta apenas para ser admirado, mas para despertar a liberdade de quem vê a obra. Ele dizia que a arte serve para "revelar" o mundo. Quando um livro mostra uma injustiça, ele tira o véu dos nossos olhos. A partir desse momento, a pessoa que leu já não pode fingir que não sabe o que está acontecendo. A arte, então, nos convida a sair do sofá e a tomar uma atitude. Ela nos inspira a ter coragem e a nos sentirmos responsáveis pelo mundo onde vivemos. Isso nos lembra muito o que o educador Paulo Freire dizia sobre a mudança social. Ele explicava de um jeito muito simples: "palavras não mudam o mundo; palavras mudam pessoas; pessoas mudam o mundo" (cito de memória).
A arte funciona exatamente assim. Um quadro, um filme, um livro, uma música não vão construir uma casa ou acabar com a fome sozinhos. O que eles fazem é transformar a cabeça e o coração de quem os consome. É a pessoa transformada pela arte que, depois, sai por aí e faz as mudanças reais que a sociedade precisa. Mas, para essa transformação acontecer, a arte precisa ser forte. Ela precisa encostar na gente de verdade. O poeta cearense Talles Azigon, de Fortaleza, resume isso muito bem quando diz: "se meu poema não tira tua roupa, de que serve a poesia?" (cito de memória). O que entendo por esse verso, além da beleza erótica e telúrica, é que, se a arte não desperta algo em nós, se não nos deixar desarmados e emocionados, ela perde o sentido. A poesia precisa ser capaz de mexer com o nosso corpo e com a nossa pele, ser o machado que quebra nosso gelo, como queria Kafka.
No fim das contas, a arte conserta as coisas por um caminho interno. Muitas vezes passamos por situações difíceis e não temos palavras para explicar o que sentimos. Estamos perdidos em nossas próprias dores. Quando encontramos uma obra de arte que parece falar da nossa vida, ganhamos um presente valioso: a linguagem. A arte nos ajuda a dar nome aos nossos sentimentos e a entender nossas experiências. Quando a gente se entende melhor através da arte, fica mais fácil entender os outros também. Percebemos que as nossas lutas não são só nossas, mas de muita gente. Esse entendimento cria uma ponte de empatia. A arte nos ajuda a fazer as pazes com a nossa história e com as pessoas ao nosso redor. No fim das contas, a arte pode não consertar um cano quebrado, mas ela conserta o olhar humano, o que é o primeiro passo para consertar todo o resto.
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