O Muro e o Martelo – A música Hammer, de Alice Phoebe Lou, e o esforço por um relacionamento saudável
Parece como se fosse o destino da humanidade, que, no importante processo de individuação, muros sejam erguidos em torno das pessoas, para que nossos corpos sejam protegidos da dor e da aniquilação. O simples fato de nascer nos causa dor. Nenhum outro animal nasce chorando — assim, o choro, para nós, torna-se sinônimo de estar vivo. No entanto, há apenas tanta dor que podemos suportar e, por isso, nos esforçamos para criar proteções contra o mundo exterior — e nisso nos separamos dos outros — e nos tornamos um “eu”. A partir desse ponto, toda vez somos confrontados com a decisão entre o Eu e o Eles. Como diz o ditado: "antes eles do que eu".
É por isso que o sacrifício de Jesus Cristo parece tão impensável, mas, ao mesmo tempo, inspira tanta gratidão. As pessoas pensam: ele não se importou com sua vida — algo que eu nunca poderia fazer — e, de fato, a entregou para salvar a minha — ele sofreu para que eu não sofresse.
No entanto, Jesus é o único exemplo de sacrifício altruísta, desinteressado. Em todos os outros exemplos, a oferta foi recompensada de alguma forma. Por essa razão, a história cristã parece tão fora do lugar, e realmente impossível de ser replicada. A situação menos ideal é a reciprocidade — ceder e depois receber algo em troca. No entanto, é o ideal, pois nunca podemos ter certeza de receber de volta aquilo que foi oferecido. Consequentemente, a autossuficiência torna-se a palavra de ordem, mesmo que, em nosso âmago, sejamos animais sociais e políticos. Construímos uma sociedade na qual poderíamos viver juntos em cooperação, e, ainda assim, vivemos como um conjunto de ilhas, um arquipélago solitário com fronteiras rígidas.
Dessa contradição, estamos fadados a cair em conflitos constantes e, para proteger o eu, cada um de nós adota uma postura defensiva, desviando a culpa ou evitando responsabilidades durante um desentendimento. Além disso, acreditamos que somos superiores ao outro e começamos a menosprezá-lo, criticando seu caráter ou personalidade em vez de tratar um problema ou comportamento específico. Em última análise, ergueremos um muro entre nós.
Isso acontece tanto nos círculos externos da sociedade quanto em seu núcleo mais íntimo: um casal. Os psicólogos John Gottman e sua esposa Julie Gottman chamaram esses comportamentos mencionados de “os quatro cavaleiros”, uma alusão ao Livro do Apocalipse, onde são interpretados como símbolos de eventos destrutivos importantes. Com base em mais de 40 anos de pesquisa, eles desenvolveram um método de abordagem da terapia de casal, chamado de sound relationship house theory (teoria da casa do relacionamento saudável). É baseado na suposição de que um relacionamento bem-sucedido é construído como uma casa — existem áreas de solidão e espaços de congregação. Somos cada um um indivíduo, autossuficiente de certo modo, mas isso não impede a possibilidade de conexão.
O aspecto mais importante do método de Gottman é que ele envolve compreender os mundos internos e desejos do outro, o que, por sua vez, requer atenção e resposta às necessidades do parceiro. Em uma palavra, baseia-se na reciprocidade — eu vejo você e você me vê.
Isso é exatamente sobre o que Alice Phoebe Lou canta em Hammer:
(tradução livre)
O eu lírico admite ter construído um muro e estar cansada das vozes internas, pensamentos intrusivos, que deprimem a mente — como acontece a quase todos nós. Se estivermos certos em nossa discussão inicial, é por isso que o eu lírico afirma: "Eu sou tudo que preciso, mas oh, como eu quero você". Esse verso diz: sei que não posso depender de ninguém além de mim mesmo, e ainda assim há uma sutil solidão ou desejo por uma conexão ausente. E a forma de criar ou preservar essa conexão é o reconhecimento de si mesmo e de seus próprios medos ("Não tenho mais medo como tinha"), mas também das qualidades do outro ("É mais doce estar ao seu lado") e de sua vida interior e ansiedades ("sua cabeça também fica cheia, eu vejo na nuvem que você carrega"). Só assim os muros que nos separam podem ser superados:
Em conclusão, aproximar-se do outro, e não se afastar, é a arte silenciosa dos gestos cotidianos — pequenos atos de alcance, escuta e encontro com o parceiro onde ele está. É nesses momentos, ternos e discretos, que o amor cresce. A força de um relacionamento frequentemente repousa nessa simples, porém profunda, capacidade de se voltar um para o outro. O compromisso é um dos pilares que sustentam a casa da conexão, junto à confiança. Ele se expressa não apenas em palavras, mas em ações — uma promessa duradoura de que, tanto nas tempestades quanto no sol, você estará presente, firme e será o porto seguro do outro. Os muros só podem cair quando ambos não apenas fazem um esforço, mas também desfrutam disso e dançam sobre os escombros.
REFERÊNCIAS
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