Apontamentos linguístico-teológicos sobre a divindade de Jesus
O Natal se aproxima, e se ouve em toda parte as clássicas músicas natalinas. E uma muita interessante, do ponto de vista teológico, é a do bate o sino pequenino sino de Belém, pois aí se afirma a tão debatida divindade de Jesus: "já nasceu o deus menino". Mas de onde é que vem essa ideia de que Jesus era deus? Ela vem, primeiro, de Paulo, que o chamava Senhor, que na cultura judaica se refere apenas a deus; depois, temos João, que associa diretamente Jesus à deus, no versículo:
Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
No princípio era o verbo, e o verbo era com o deus, e deus era o verbo.
Note-se, no entanto, que essa tradução interlinear difere da maioria das traduções. A terceira oração é colocada na ordem "e o verbo era deus", em vez de "e deus era o verbo", como está no original. Essa ordem muda alguma coisa? Vamos ver.
Estamos diante de uma oração com sujeito, verbo de ligação e predicativo do sujeito. Em alguns casos, mudar a ordem não muda o sentido nem a função sintática dos termos. Por exemplo, dizer "a porta é azul" ou "azul é a porta", não faz diferença semântica nem sintática: "a porta" continua sendo sujeito, e "azul" continua sendo predicativo. Agora, quando o predicativo não é adjetivo, mas substantivo, a análise fica um pouco mais difícil. Em (1) "Pedro é o advogado de Paulo", "Pedro" é sujeito e "o advogado de Paulo" é predicativo, mas esses papéis se invertem em (2) "O advogado de Paulo é Pedro". Mas, em questão de significado, isso muda? Depende.
Se o significado de uma frase também está conectado ao contexto prático, às intenções comunicativas, então, sim, há diferença entre as frases, pois há o fenômeno da topicalização, ou seja, de destaque discursivo para o termo que aparece primeiro. A frase (2) é diferente da frase (1), pois (2) pode pressupor uma clarificação: o advogado de Paulo não é João, é Pedro. Em (1), Pedro é o sujeito e é identificado como advogado; em (2), o advogado de Paulo é identificado como Pedro. Desse modo, dizer "deus era o verbo" é destacar "deus" como o sujeito que não é outra coisa, mas sim "o verbo", e identificar deus a partir do ser verbo. A diferença é sutil, mas importante, pois subentende-se que o evangelista quis dar destaque à verbalidade de deus, não à divindade do verbo. "Deus é algo", não "algo é deus".
Outra questão que se levanta com essas escolhas linguísticas é a da identidade. Em orações do tipo substantivo + verbo ser + substantivo, existe a sobreposição dos substantivos, e o verbo ser funciona quase como o sinal de igualdade (=). Se digo "Pedro é o advogado de Paulo", não existe uma pessoa "advogado" e uma pessoa "Pedro", mas ambas as palavras se referem à mesma pessoa. O que faço é atribuir uma identidade. Então, dizer "o verbo é deus" ou "deus é o verbo" significa montar a identidade verbo = deus e vice-versa (propriedade simétrica da igualdade). Essa leitura muda também a interpretação da segunda oração ("o verbo era com o deus"), passando a significar que verbo e deus eram juntos. Talvez, por essa razão, o evangelista tenha repetido no versículo seguinte, para frisar:
Este [o verbo] era no princípio com o deus.
Mas, no texto de João, o verbo ser está no passado: "deus era o verbo". Essa identidade, então, mudou. E o que mudou? O verbo se fez carne (João 1:14). Já não eram, o deus e o verbo, juntos. Ter sido não é o mesmo de ser. Essa mudança por que passa Jesus acaba com sua divindade anterior. Não é como a tradição da Igreja Católica prega, que Jesus é verdadeiramente deus e verdadeiramente humano. O evangelista não diz que deus se fez carne, sim o verbo. E, assim, o verbo deixou de ser deus para revelar o deus. A qualidade verbal de deus desprendeu-se, para poder comunicar, revelar deus.
Esse deixar de ser deus se contrapõe ao episódio da queda da humanidade, que ocorre quando nos tornamos como deuses (Gênesis 3:5), e talvez daí venha a salvação da humanidade por meio de Jesus. A salvação acontece quando a humanidade, como Jesus, deixa de ser deus, ou como deus, e também quando revela o deus por meio da linguagem (do verbo), ou seja, quando mostra o que deus é: bom, sábio e poderoso que se manifesta no mundo como amor, como em outro texto apontei¹.
Sendo assim, não nasce um deus menino, como diz a música; nasce, sim, um menino, uma menina, todo dia, como no evangelho de um outro João:
"— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
Comuniquemos essa boa nova! Feliz Natal!
Comentários
Postar um comentário